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sua mochila está vazia

      Tag: lara dias

    • arte é ser

      Esse é o meu último ano como jovem. Segundo a Assembleia Geral das Nações Unidas, quando eu completar vinte e cinco, em julho, serei adulta. Não existe um dia do ano pra celebrar essa fase. Mas existe o dia do Jovem, que, também segundo a AGNU, acontece entre os quinze e vinte quatro anos e é quando a gente "começa a apresentar sinais de maturidade diante da vida”. Por esses parâmetros, eu poderia ter 85 anos de idade. Às vezes, 5.

      Desde sempre, me sinto mais atraída por conversas com pessoas mais velhas. Aquela ideia de que as rugas aparecem junto com a sabedoria. Ou talvez seja reflexo do meu sotaque mineiro, que nos pede pra respeitar os mais velhos e tomar a bênção antes de sair de casa. Se a minha juventude acabasse mesmo em alguns meses, eu teria sido uma péssima jovem. Muitas noites de vinho e Netflix em casa. Muitos dias de calmaria, livros, cházinho e vinil rodando na vitrola nova que imita uma antiga. Poucas madrugadas de balada e de assistir ao sol nascer com minha gangue de almas juvenis e brilhantes. Mas eu sei que não é (só) sobre isso. Eu sinto, e é também uma busca, que tá tudo bem não viver rápido e morrer logo (live fast die young). A vida também acontece devagar.

      Desde sempre, eu quero conversar com pessoas mais velhas. Mas tenho me curvado em admiração pelas gerações que chegaram, e que têm colocado tantas certezas de cabeça pra baixo. E é por isso que convidei Maria pra tomar um café comigo.

      Eu a conheci num projeto que abraçava iniciativas locais e prometia acelerar a veia empreendedora dos produtores inscritos. Cada um tinha um repertório diferente mas, de algum jeito, parecido. Todos contaram dos vários lugares por onde passaram, as experiências em empregos frustrados, as viagens que alertaram pra um novo rumo, um basta pra viver o sonho e a semente de uma ideia que chegou pra se brotar ali. Uma tentativa um pouco desesperada de finalmente fazer dar certo, viver do que se ama e nunca mais ter que trabalhar – nem um dia sequer. Sabe aquela história?

      Então chegou a vez da Maria Trika se apresentar. Grandes olhos azuis, um rosto delicado e fala doce. Cabelo curto e loiro, jeito tímido mas muito seguro de si. Ela contou que tinha uma marca e que a proposta era criar com o que já existe no mundo. A marca dela tinha um propósito, tinha identidade, era autêntica e ela não parecia ter a mesma pressa que nós. Lembro de ficarmos todos em choque. O silêncio se quebrava com suspiros incredulous diante daquela menina, na época, com 17 anos.
       

      Fiquei boba. Juntei todos os meus planos e sentei com as pessoas que ainda comentavam sobre aquele sentimento injusto e humano de se comparar com o outro: “O que é que eu fiz com a minha vida até aqui?” O projeto seguiu e eu encontrei com Maria esporadicamente pela cidade. Durante os anos em que migrou de uma escola pra outra, Maria ajudou na realização do documentário Cabelo e Identidade (Occhi Observatório), participou de exposições, criou a Vore de moda sustentável, a Kara, espaço para criar maquiagens artísticas, se tornou fotógrafa e co-criadora de um cineclub chamado CineLixo. Foi numa tarde regada a café forte, seu preferido, que fui entender melhor de onde vem tudo isso.
      Maria Horta Alves tem 19 anos hoje. Mas isso pouco importa. “Não estou alinhada a minha idade física, nem nunca estive. Sinceramente, nunca sei ao certo quantos anos tenho ou os outros têm. Juventude pra mim é ter o espírito livre, é viver mesmo com a incerteza, estar presente ali, sentir a vida, abraçar e, principalmente, amar cada mísero segundo que, inevitavelmente, vai acabar e morrer”.

      Minha curiosidade sobre ela tem muito de uma busca pra entender o que é arte. Esse termo que é supervalorizado e banal, ao mesmo tempo. E nessa busca, eu amo encontrar pessoas que parecem caminhar nesse espaço criativo em tudo que fazem. Pra Maria, “arte é saber lidar com abismo,  não negar o caos, a insegurança, os buracos que habitam em nós, a ânsia. É criar um movimento aberto, deixando um pouco de espaço pra que o outro consiga entrar e dar continuidade a ele”. Na mesma conversa, ela me contou que cresceu num ambiente fértil, que seus pais têm uma sensibilidade muito forte e que por isso, a arte sempre foi uma presença interna, enraizada. E quando perguntei o que mais a faz se sentir jovem, a resposta veio naturalmente linda: “Fazer de algo, um ato, gesto, um fenômeno autoral”.

      É incrível como isso se manifesta de muitas formas no que ela faz. Já falei por aqui que processos criativos me encantam. E o que se repete em tudo que ela produz é uma conversa interna pra saber “se aquilo é um gesto meu, se estou partindo de mim pro outro e não o inverso”, conta.

       A gente se encontrou pra fazer os retratos dessa entrevista na casa recém ocupada por ela e pela empresa/coleção de arte do seu pai. Era preciso registrar seu processo e dar conta de mais de uma Maria. Porque somos muitas e imagem nenhuma consegue nos definir por completo. “Tenho duas vertentes fortes de estilo. Uma delas é mais íntima, mais pessoal, mais Maria. Com roupas leves, confortáveis. O outro é um estilo totalmente pavoa (tipo o pavão animal mesmo, mas sem a finalidade de seleção sexual). Encarno uma personalidade estética, meio monumental, bagunçada, excêntrica, meio Ney Matogrosso. Ainda é bem eu, mas um outro eu, mais externo, aquele que o outro vê e que disfarça o físico de boneca de porcelana, no qual insistem em me limitar”, explica. De Maria simples à Maria pavoa, foram quase 2 horas de frente pro espelho. Observando o desenho do seus olhos, misturando as cores no pincel e desenhando o seu rosto. Entre um passo e outro, fomos conversando sobre a vida.

      Com a liberdade que sempre lhe foi dada em casa, Maria teve o privilégio de experimentar muitas correntes no seu processo de educação. Estudou em uma escola alternativa, voltada pra pedagogia do afeto. Passou um tempo em uma escola técnica de administração, frequentou uma instituição católica tradicional e paralelamente, fez vários cursos livres. Faltando dois anos pra se formar, ela encontrou o seu lugar na Casa Viva, uma escola que nasceu de um movimento idealizado por um coletivo de professores em favor de uma educação transformadora: "Lá a minha vida mudou através de movimentos e descobertas repletos de potência e de carinho”. Na educação, mora uma das minhas maiores esperanças pro futuro – um futuro de mais acesso e de mais possibilidades de escolha. “Foi lá também que consegui perceber mais sobre a forma de educação que acredito. Sensível, de pequenos movimentos e resistências de potências enormes, onde se tem liberdade pra descobrir e explorar sua forma de ser e, principalmente, uma educação que se faz junto”.

      Maria Trika tem 19 anos. Mas as vezes não. Ela parece uma boneca mas é muito maior do que isso. E já disse que não pretende se tornar adulta, “fase de uma desistência de si, quando aceitamos coisas, largamos outras, esquecemos que tudo é uma escolha, nos fechamos, endurecemos, nos enterramos”.  Mas não tem medo de crescer até porque não é preciso que isso aconteça pra que ela seja, desde já, o que quiser ser: “Crescer é muito bonito, é movimento! E é interessante, porque se ganha mais autonomia, responsabilidade e suas escolhas começam a ter mais força e peso. É desesperadamente legal”. 
      Esse é o meu último ano como jovem. E também o primeiro. Como é incrível poder aprender com pessoas diferentes e se inspirar com trajetórias de vida curtas ou extensas. Eu quero ser jovem até o último fio de cabelo branco, se me for permitido pela idade. Mas quero mais ainda me permitir ser jovem todos os dias. E livre pra ser simples ou pavoa. A liberdade talvez seja o nosso maior termômetro de juventude. 

      Texto e fotos por Lara Dias.
       

       
       
      14.04.17
    • mulheres com sotaque: Domitila de Paulo

      Cheguei na casa, na zona norte de BH, com a ajuda dos vizinhos. O primeiro me avistou meio perdida e já se prontificou a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Falei que procurava por Domitila e ele apontou o caminho para esquerda, apesar de não ter certeza sobre esse nome. "Deve ser a filha de Denise". Eu segui e o número não batia. Do retrovisor do carro, o mesmo senhor de camisa azul corria com dificuldade e com a mão na testa, fazendo sinais de lamento. "Ô moça! Cê me desculpa! Não é pra esse lado, não. Eu te passei informação errada. Óh procê vê! Cê me desculpa, viu? A casa dela é para o outro lado. Aquele portão preto lá adiante, debaixo da árvore, do lado da bar". Enquanto eu ria e dizia que estava tudo bem, outro vizinho aparece pra ter certeza de que agora as informações estavam claras e eu certamente conseguiria chegar até a outra esquina em paz, pra encontrar quem precisava.

      Surpresa com tanta atenção e boa vontade, eu só agradeci e avisei à minha entrevistada que estava na porta. 

      Domitila sai com suas longas madeixas coloridas, já rindo da movimentação. Conto para ela da surpresa de ser recebida assim e ela comenta, naturalmente: "Na comunidade é desse jeito", rindo. Que bom. Estava em casa. 

      Demos meia volta pelos cômodos, vi o cantinho onde ela produz e acatei a sugestão de ficar na cozinha: "É o meu lugar preferido", ela disse. Tirei da sacola um saco de pão de queijo e uns docinhos. Com copos de suco e café, a gente começou a longa conversa entre duas meninas cheias de sonhos, criativas inquietas, de pele preta e sorriso um tanto fácil

      "Eu sempre quis produzir coisas. Na faculdade, era aquela pessoa da moda que tava sempre no ateiler de design de produto e estamparia, suja de tinta", conta. Domitila de Paulo se formou em Design de Moda mas isso está bem longe de dar conta de toda sua produção criativa. Depois de fundar uma marca de meia calças estampadas durante o curso, ela ocupou vagas de estilista e designer em marcas importantes e, quando tudo parecia estável e seguro, surgiram muitos questionamentos. 

      "Eu comecei a questionar se estava sendo representada pela minha própria marca ou pelas marcas em que eu trabalhava. Eu queria ampliar as narrativas e entendi que, pra isso, precisava retomar meus processos". Quase como uma poesia da vida, juntar recortes e criar novos cenários ganhou toda a força no seu processo criativo e ela voltou a produzir colagens analógicas. Primeiro, protegendo pra si tudo que fazia: "Colagem pra mim era como se fosse um grande diário. Fazia e guardava. Comecei a mostrar alguma coisa, levei pra uma imersão de afrocriadores em São Paulo, onde conheci pessoalmente a Tássia Reis. Depois de um ano, simplesmente em uma tarde, ela me mandou uma mensagem dizendo que estava apaixonada pelo meu trabalho e que queria muito que eu fizesse a capa do novo EP dela". O álbum, que ganhou o nome Outra Esfera por causa da colagem, apareceu na lista dos seis melhores discos lançados em 2016 (Correio Braziliense). 

      "Minha mãe sempre foi militante do movimento negro. Pra mim e pro meu irmão, a consciência racial sempre esteve dentro de casa. Mas há uma diferença quando tem a ver com a sua mãe e quando tem a ver com você mesmo. É uma construção interna", conta. Na mesma época em que retomou as colagens, por indicação de sua mãe, ela leu o livro Igbadu – A Cabaça da Existência, e tudo fez muito sentido. "O livro é um conto lindo sobre os Orixás na criação do Aye (mundo em que vivemos). Eu vi que tinha muito a ver com as colagens e fui incorporando aquilo no meu trabalho. E assim surgiu a série Deusas no Orun, que traz a relação entre mulher, natureza e universo"
      No seu processo criativo, Domitila tem a liberdade de buscar os elementos que deseja. Se no acervo tiver muito céu, talvez seja o momento de buscar água. Se faltarem estrelas, dá pra recortar uma galáxia inteira pro fundo de uma paisagem cotidiana. E por ser uma arte analógica, tudo começa pelo garimpo. São horas visitando sebos, inclusive em viagens, lutando contra a rinite e buscando livros de geografia e revistas. Imaginando essa possibilidade de criar quase um novo mundo com suas próprias mãos, pergunto como ela construiria esse lugar caso pudesse transpor seus sentimentos pra vida real: "O mais incrível na colagem é que ela é o resultado da soma entre imagens distintas. Cada uma vem de uma publicação, época ou estética diferente. E quando se encontram, narram uma nova história onde todas se tornam igualmente fundamentais. Pra mim a gente já vive isso na relação com as pessoas e com o espaço, já que cada um tem a sua propria relação com o tempo, carregando suas vivências e trazendo um repertório único. O que falta é o respeito com a vida e a história de cada um pra alcançar essa mesma harmonia, que pode existir livremente no papel".

      Foto: Pablo Caldeira / Modelos: Lais Lacôrte e Pedro Hbs

      BAPHO

      O carnaval de rua em BH ganhou muita força nos últimos anos. E um pouco antes da festa, Domitila criou uma linha exclusiva de brincos, novamente, garimpando diversos materiais em suas andanças. E foi um Bapho! "Na primeira leva, produzi cerca de 35 brincos. Na segunda, entre 60 e 70. E tudo sozinha. Foi muito legal ver a rapidez do negócio: em 48 horas, 30 estavam esgotados. No segundo momento, em 40 min, 21 estavam vendidos. Também fiquei muito feliz com Liniker e Tássia postando fotos e usando nos shows".

      Foto: Pablo Caldeira / Modelo: Mayra Motta
      O processo criativo das pessoas me encanta. É muito superficial definir alguém pela profissão e pelas atividades que ela faz, mas o processo diz muito sobre essa verdade. A Domitila, por exemplo, disse: "Tenho uma metodologia que se repete sempre. Acredito que a gente pode fazer com o que tem. Olhar para si, entender a sua narrativa. Não precisa ir longe e achar que o universo criativo é intocável. Entender quem você é e a identidade do que você produz, é o que torna sua produção única".

      Como mulher negra e criativa, Domitila acredita que ser representada numa imagem final é muito válido, mas é preciso ir além: "Gosto de ver a ficha técnica do que é relevante. Quero ver quem está por trás das produções porque ocupar esse espaço ainda é um longo caminho. Eu quero ver mais do que capa de revista, quero ver pessoas negras nas equipes criativas, na diretoria, decidindo e produzindo o conteúdo que vemos. Só assim teremos representatividade de verdade na moda, arte, cinema, etc. Assim como na política, só tendo a gente lá pra que existam leis pra nós. Nós precisamos ocupar esses espaços para que nós mesmos falemos por nós".


      Foto: Pablo Caldeira / Modelo: Milena Badu
      Com toda a força do movimento feminino, me identifiquei muito com essa conversa. Sororidade é poder tirar horas do seu dia pra ouvir a história de outra mulher e se sentir próxima, recortando e colando pedaços da sua própria vida que se conectam de alguma maneira com a dela. O pão de queijo já tinha acabado quando chegamos nos últimos minutos da conversa. Mas ainda deu tempo de sentir essas palavras como um abraço: "O feminino está pra mim de forma muito natural e é a base, como a água. Às vezes, fluida, às vezes forte, mas sempre presente. O trabalho acaba sendo um espelho e me sinto muito entrelaçada à energia feminina (que pode ser múltipla). Seja pelo que me toma e inspira, seja pela narrativa, ou histórias que trago pro meu trabalho. Tratando de imagens, acredito que a natureza por si só é uma das expressões mais fortes do feminino". 

      Pra ficar mais por dentro dos trabalhos de Domitila, é só seguir ela no instagram

       
      13.03.17
    • carnaval das minas

      Carnaval nunca foi minha festa preferida. Minha aptidão pra gostar dos mistérios da vida sempre me afastou um pouco dessa alegria fácil e solar da folia. Eu raramente me sinto à vontade pra dançar e pular em público, extravasando essa energia contagiante que é a minha principal foto imaginária desse momento do ano. 

      Mas tudo mudou quando resolvi passar o carnaval em BH e, lá em 2013, a cidade, que parecia abandonada nessa época, deu seus primeiros passos carnavalescos diante dos meus olhos ainda resistentes. Lembro de ter intercalado bloquinhos de rua e Netflix, ainda sem acreditar que a cidade estava mesmo pronta pra oferecer tudo que poderia. 


      Foto: Amarante Filmes

      Nos anos seguintes, cada vez mais amigos trocaram as viagens pra Diamantina, Salvador, Rio e outros destinos cobiçados pra ficar aqui. Esse ano, a expectativa de público chegou na casa dos milhões e a prefeitura registrou mais de 300 blocos saindo pela cidade  Então a regra é juntar o seu bando de amigos e fazer escolhas, ou sair pra rua sem combinar nada com ninguém, mas com a certeza de que vai encontrar todo mundo. Como mágica, abraços suados e cheios de purpurina começam a acontecer durante o trajeto. 

      Eu descobri nesses anos seguintes que eu gosto mesmo é desse encontro. Dos sorrisos, da liberdade de misturar todas as poucas roupas coloridas que tenho no armário. Da surpresa que é encontrar seu cliente mais conservador usando peruca rosa e sua dentista de meia arrastão.

      O carnaval nunca foi minha festa preferida mas levaram meu coração pro bloco, esfoliaram a minha pele com glitter, ocuparam meu quadrado com mais de dez pessoas, me ofereceram Catuçaí do Nandão, abriram espaço pra protestar contra o assédio e o machismo e aí, não teve jeito: esse amor cresceu forte dentro de mim.

      BH teve um carnaval de resistência e de muita força feminina. Nosso carnaval, mais do que nunca, foi e é um carnaval das mina. Das que organizam bloquinhos cheios de ativismo (Sagrada Profana, ClandesTinas, Bruta Flor), das centenas que produzem e tocam o xequerê colorido, o tambor, os metais e toda a bateria, carregando instrumentos ladeira acima e abaixo. Das que se protegem e se ajudam, das que se empoderam no short mais curto, nas poucas roupas, na liberdade de se vestir de si mesma.

      Todos os anos,levei minha câmera e registrei o que vi nas ruas. E esse foi, sem dúvida, o mais bonito de todos. Minhas lentes não capturaram os momentos de assédio, de violência e  homofobia. Mas é triste saber que eles existiram e que ainda há muito a caminhar. Mas eu vi Cristal, nossa pérola afro brasilis, abrir caminho no bloco Garotas Solteiras pra derramar suas palavras de luz. Todo mundo sentou pra ouvir ela interpretar Beyoncé e explodiu a bateria com o melhor do pop no ritmo de batuque. Vi uma corrente de mãos dadas criando espaço pra uma senhora que se divertia no meio do bloco, sentada em sua cadeira de rodas, acenando pra aqueles jovens malucos. Vi as marchinhas se posicionarem com gritos políticos e vi mamilos cobertos só de tinta dourada. 

      Nosso carnaval é um lembrete de que a cidade não é o eixo centro-sul. As pessoas não são só o que a profissão delas anuncia. A chuva não é um impedimento pra sair de casa. Axé merece todo nosso respeito, especialmente o dos anos 90. E é pra respeitar as manas, monas, minas e manos o ano inteiro. 

      Carnaval é a minha festa preferida. Eu amo a sensação de pertencimento que é se locomover por tantas ruas da cidade, ocupando aquele espaço que é sempre só dos carros. Inventar e fazer minhas próprias fantasias e adereços de cabelo com a ajuda da minha mãe. Amo a liberdade de amar o meu corpo como ele é e ter coragem de sair nas ruas só de body. O que sinto é que a resistência continua. Talvez com um pouco menos de glitter, sem cílios postiços ou pele muito a mostra. Mas eu quero viver nessa cidade. Quero fantasiar o ano inteiro de Carnaval. 

      Belo Horizonte, você me deu um novo amor de presente e agora não tem volta. Ainda bem. 
       

      Depoimentos de quem faz:

      Foto: Carlos Hauck

      Bruna Rodrigues se arriscou faltando pouco tempo pra a folia e aprendeu a tocar Surdo: "Eu sempre participei como foliã, mas queria conhecer esse outro lado da bateria. Ver muitas mulheres tocando foi o que me inspirou demais. Faltando um mês eu comecei a participar de oficinas (criadas por outras mulheres pra se ajudarem) e aprendi a tocar o Xequerê. Mas logo decidi arriscar nos graves e foi muito empoderador! É um instrumento grande, pesado e, apesar de nunca ter tocado nada, consegui. E é emocionante. O grave bate dentro no coração"

      Tati Marques tocou em 15 (!!!) blocos diferentes esse ano: "Em BH é muito lindo porque a gente integra diferentes pessoas, diferentes culturas. Esquenta a nossa alma e dá uma felicidade gigante, parece que você tá prestando um serviço. Meus maiores amigos hoje são os que fiz tocando no carnaval. Foi desafiador, foi difícil, mas é uma das experiências mais incríveis que já tive"
      07.03.17
    • livro do ano

      Em 2015, decidi que faria uma agenda. Não qualquer agenda. Queria resgatar minha relação com o papel e a caneta e entendi que meu processo de criação precisava desse contato. Não bastava ter um calendário online, mil apps de organização e projetos. O momento que me sentia segura, sob controle das tarefas e dominando meus dias, era aquele de pegar a caneta e riscar com toda a plenitude da vida adulta, uma a uma das atividades pensadas praquele dia. A satisfação era tanta, que comecei a aumentar a lista com itens banais como "comprar pão", só pra ter certeza de que riscaria ele no fim do dia com um alívio indescritível.

      Comecei então a perguntar aos amigos quem ainda usava agenda de papel, e me surpreendi com a quantidade de heavy users de redes sociais, smartphones, dropbox e afins que ainda usavam esse instrumento artesanal como apoio. Estava decidido: meu novo projeto seria pensar uma agenda que não só cumprisse a função utilitária, mas também nos inspirasse ao longo do ano.

      A gente costuma pensar a vida em ciclos e na correria do trabalho, da rotina e dos encontros, esquecemos que todo ciclo é composto de pequenos espaços de tempo. Um ano incrível é feito a cada dia e não acontece sozinho. É preciso da nossa atenção, do nosso carinho, dos planos que passamos pro papel e do papel pra realidade. E é por isso que eu chamei a agenda de "Livro do Ano": o livro do seu ano, escrito a cada dia, contando a sua história.

      O Livro do Ano 2016 veio como uma pontinha de vontade, um primeiro desejo de existir. E o mais importante dele foi a lista de 50 mulheres, destacadas nas suas datas de aniversário. Essa seleção me fez conhecer histórias fantásticas! Foi lindo acordar num dia qualquer e descobrir que era aniversário da Frida Kahlo, que ela era canceriana e que eu nasci com só alguns dias de diferença. Ou no meio de uma tarde cansativa e cheia de desafios, ser lembrada de Nina Simone, de como ela colocou sua voz em nome de uma luta e, a partir daí, passar o resto do dia ouvindo sua discografia completa.

      O ano passou, muita coisa mudou e eu estava com uma rotina completamente diferente. Faltando três meses pra dezembro, decidi que a versão 2017 precisava acontecer e comecei uma corrida contra o tempo.

      No ano passado, foi quando me re-conheci como mulher negra. Foi quando prestei atenção em quem assinava os livros que eu gostava de ler, dirigia os filmes que eu assistia e cantava as músicas que eu ouvia. E como eu já esperava, a parcela de autoria feminina era bem menor. Mulheres e negras, ainda menor. Comecei então uma pesquisa intensa e por vezes, dolorosa, em busca de inspiração e referência nessas pessoas.

      Esse trabalho me encheu de orgulho e admiração. E em uma das reuniões que tive com o meu amigo e designer, Luciano Ferreira (Estúdio Triciclo) que assina o projeto gráfico do Livro, chegamos na ideia de fazê-lo todinho em preto e branco. O preto seria luz sob a história de mulheres negras inspiradoras. Branco, o vazio no qual cada um escreve a sua própria história. O Livro do Ano 2017 trouxe esse contexto de luz e força pra uma agenda de papel. A intenção, é que essas mulheres nos inspirem e encorajam com suas trajetórias.

      Pintei 12 aquarelas em homenagem a mulheres negras que admiro e continuei com a lista de mais 50 mulheres ao redor do mundo, de épocas e áreas diferentes. A costura aparente é um pouco da leveza necessária. O calendário lunar, pra nos guiar por transformações. A cada começo de mês, uma página pra sonhar, planejar e realizar, e a cada fim de mês, uma página pra lembrar de agradecer. Páginas livres são um respiro.

      O Livro do meu ano de 2017 tem sido escrito com muito amor e c'alma. É o meu primeiro ano como mulher negra. O primeiro em busca verdadeira das minhas raízes. O ano, que começa com Angela Davis, me lembra que ainda é preciso falar sobre mulher, sobre raça e sobre cor. E termina com Djamila Ribeiro, re-significando nosso lugar na história.

      2017 é meu ano de Saturno, de catalizar toda a energia criativa e iluminar o que é de luz. Meu desejo é que seja assim pra você também.

      O Livro do Ano foi idealizado por Lara Dias (que faz parte do nosso Sotaques!), o projeto gráfico é assinado pelo Estúdio Triciclo e recebeu o apoio da Taquilla Brasil pra existir. Pra comprar o seu, é só ir aqui, ó


       

      18.02.17