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sua mochila está vazia

      Tag: julia vargas

    • a festa do boi

      Há uma qualidade de tempo que vem se perdendo em meio ao caos urbano, esquecida entre notificações de WhatsApp, esmagada nos metrôs lotados, chutada por passos apressados de quem anda com a mente em outro lugar. Mas, como disse a designer Paula Dib, existem pequenos portais pra um tempo mais amplo, e um deles pode ser encontrado no contato com as crianças. Quero apresentar a vocês agora um outro portal: aquele que é oferecido pela Cultura Popular

      Vivi um tempo precioso na última festa do Bumba meu Boi, manifestação da Cultura Popular maranhense, que acontece aqui em Sampa, em um bairro chamado Morro do Querosene. Por doze horas, a rua foi minha! As batidas do pandeirão ressoaram no meu corpo e pra onde olhei, vi tecidos e fitas de cetim em movimento. Dancei ao lado de gente pequena e gente grande e no cair da noite vi uma multidão se ajoelhar e ficar bem quietinha observando o batizado do Boi.

      “Quando chega a época da festa sinto nostalgia da infância. Não consigo me ver sem o Boi, sem o Cupuaçu, eles me trazem uma alegria muito grande. Entro num estado de transe do começo da festa até o final, e nos ensaios também. Quando canto uma toada, ou danço, deixo transparecer aquilo que estou sentido no momento, é quase uma sessão de terapia. O boi me mantem sã nessa sociedade cruel.", me contou Juliana Carvalho, integrante do Cupuaçu, grupo de estudo de danças populares brasileiras que organiza a festa há mais de 25 anos. Assim como outros integrantes do grupo, ela nasceu no Morro do Querosene e brinca de Boi desde pequenininha. 

      Também conversei com Ana Flor, filha do Tião Carvalho, fundador do grupo e da festa do Morro. Seu pai veio do Maranhão e seus avós estão lá até hoje. Ela me fala de um tempo onde as manifestações culturais eram algo natural, o brincar estava inserido no dia a dia e cada comunidade tinha suas próprias brincadeiras. Hoje isso vem se perdendo, engolido pela globalização. "É preciso resgatar e preservar. Me preocupo com as pessoas da minha idade que não tem contato nenhum com a Cultura Popular. Aqui no Morro somos uma comunidade de resistência. Minha luta é a manutenção dessas brincadeiras!”.

      A Flor é uma das poucas mulheres que toca o pandeirão durante a festa: “É muito novo isso da mulher tocar no Boi, até dançar se você for pensar, coisa de um século pra cá. As comunidades tradicionais são muito machistas e nelas se crê que a mulher não pode segurar um instrumento pesado. Várias vezes fui tocar em alguma comunidade e tomaram o instrumento da minha mão pra dar pra algum homem. O machismo está muito arraigado, mas aqui no Grupo tem uma galera disposta a desconstruir.”


       

      A Festa do Boi deixou uma marca permanente no Morro do Querosene. Nas últimas décadas,  pessoas com interesses parecidos foram sendo atraídas pro bairro, de modo que hoje ele pulsa arte e cultura e tem um senso de comunidade muito forte. Agradeço ao universo por morar perto e poder fazer parte dessa grande festa. 

      Agradeço às mãos que batem forte no couro do pandeiro.
      Aos cuidadores do fogo que o mantêm aceso a noite toda.
      Aos adultos que viram crianças por um dia.
      E às crianças que correm e dançam em liberdade amaciando o tempo rígido das metrópoles. 
      E especialmente ao Boi por abrir a portinha do brincar.

      Fotos do Boi Mirim, na Festa do Boi, no dia 18 de Junho de 2017. Clicks de Julia Vargas.

      27.06.17
    • aprendiz de mãe, com Paula Dib

      “Entendi o significado da palavra visceral ao tornar-me mãe”, diz a moça de camisa florida, sentada na minha frente em um café. Seus olhos são verdes e muito vivos, e às vezes pousam em mim, curiosos. 

      Essa mulher é Paula Dib, designer, articuladora social e amiga muito querida. Paula se considera aprendiz de mãe, e não sabe se algum dia vai deixar de ser. Sua jornada da maternidade começou há menos de 3 anos, quando engravidou do Pedro. “Ser mãe é caminhar o tempo todo por um novo lugar, sempre carregado de emoções. É um processo que se dá por aqui” e me aponta a boca do estômago. Pergunto sobre o começo de tudo, a gravidez. 

      “Logo no inicio da gestação, a sensação é de estar abrindo espaço. O corpo começa a ser tomado por uma atividade completamente nova e contrária ao ritmo externo. Você tem urgência de fazer coisas, mas quer descanso. Depois que o corpo acolheu esse novo movimento, muito fluiu. Entrei em um lugar de potência, ao perceber que nós mulheres temos a capacidade de gestar uma vida dentro da barriga. Pensava: essa é a minha natureza como mulher, é a potência feminina que existe em mim.”

      Pedro chegou um pouco antes do esperado, com 37 semanas. Durante uma ligação com um grupo de artesãs do Piauí, veio uma primeira contração; era o trabalho de parto começando. “Entrei nesse lugar da partolândia e segui meus instintos, me entreguei ao que estava acontecendo. Vivenciando as contrações, imaginava o mar com as ondas fortes que vinham e iam. Neste lugar não existe controle, não existe conter, é quando o corpo consente. O Antonio, meu marido, soube ser sensível a este momento, ele foi um elemento decisivo pra minha alma."


       
      Paula se mudou recentemente pra uma casa com um jardim. Ter um pouquinho de terra já tem feito grande diferença na sua rotina com Pedro. Outro dia eles passaram uns 20 minutos observando como uma das taturanas andava buscando lugar para fazer um casulo. “Com a natureza mais presente, os ciclos ficam mais evidentes, você começa a olhar pros detalhes. O Pedro me ajuda muito a estar nesse lugar do singelo, da miudeza, da presença. Ele me convida a entrar num ritmo oposto ao qual estamos vivendo hoje em dia. Gosto de me desconectar do mundo e entrar em contato profundo com ele. Hoje em dia é desafiador porque a gente está sempre sob muita demanda. Mas eu sinto que deixar o meu filho me levar a esse lugar é de uma importância enorme pro processo de desenvolvimento dele e me dá dicas do que é realmente essencial."
      Pras crianças tudo é experiência, explica: “jogar o iogurte na mesa, sentir o iogurte caindo na perna, ser derrubado pelo mar, cavar e descobrir que a areia é mais fria embaixo. Eles são cientistas, estão investigando. Com essa consciência, ao invés de pensar 'ai, que bagunça' quando ele joga algo no chão, me ponho curiosa e penso: o que ele está descobrindo? Mas, é claro, existem alguns limites. Eu tento trazer consciência de que tudo tem causa e conseqüência. Sujou, vamos limpar. Como designer, eu sinto muito que nos falta uma noção maior de causa e consequência no mundo. Qual é a consequência de construir uma hidroelétrica, por exemplo?”

      No final do nosso papo, acompanhado de croissant de amêndoas, pergunto como fica a individualidade no processo da maternidade. “Sou uma coisa completamente misturada com meu filho. Se eu estou triste, ele fica triste, estamos conectados por fiozinhos transparentes. Eu ainda estou na busca desse meio termo: nem sair e me desconectar, nem ficar só naquele casulinho delicioso”. 

      Ilustração de Julia Vargas, fotos de Antonio Lino e Javier Cifre “Porni”.

      12.05.17
    • mulheres com sotaque: Péo

      De repente me vi ali de novo, rodeada de crianças, observando com espanto aquela casa que mais parecia um barco cheio de janelinhas, ou quem sabe uma nave espacial, pelo formato arredondado. Esse lugar é a Casa Redonda, escola onde meu irmão estudou 13 anos atrás. Fui lá entrevistar a fundadora, Péo.
       
      Maria Amélia Pinho Pereira é uma mulher que me inspira – e muito! Ela criou uma escola onde o brincar é levado a sério e as crianças se desenvolvem num ambiente lúdico e com muito contato com a natureza. Também fundou um projeto social pros migrantes que vem tentar a vida do lado de cá, a Oca: uma escola de cultura popular onde as raízes de cada um são honradas e fortalecidas e se aprende dançando e tocando. Como se fosse pouco, ela é também vice presidente do Instituto Brincante aqui em Sampa.
       
      No dia da minha visita, subimos uma escada em espiral e entramos em uma salinha pra conversar. Havia ali uma das muitas janelinhas azuis e vermelhas espalhadas pela casa redonda: “Em cada janela que eu olho vejo uma vista diferente, um novo recorte do verde lá de fora. Daí eu penso: meu Deus, é isso, o mundo são várias janelinhas, não uma só”, me contou Péo.

      Ju: Péo, me conta um pouco da sua história?
       
      Nasci defronte do mar, sou de Salvador e o fato de ter convivido com um horizonte mais aberto determinou muito a minha maneira de ser. Eu não esqueço que o mundo é infinito. Vim pra São Paulo como muitos nordestinos, aos 22 anos, achando que no sul estava o conhecimento maior das coisas. Esse horizonte aberto começou a ser constelado de outra forma e o mantive dentro de mim como um pulsão dos sonhos e idealismos no âmbito da educação.

      Cheguei aqui e entrei em uma escola experimental, onde fui sócia e professora durante 20 anos. Apesar de ser experimental, era uma instituição com sala de aula, horários fixos, aquela coisa toda e convivendo com os meninos aprendi muito com eles. Ao dar ouvido à eles vi que a escola tinha que ter outro formato. Eu via que o planejamento, que era feito pelos professores, chegava na sala de aula, com aqueles 20 meninos vivos, e não dava certo. Passei a ouvi-los mais. E ouvindo, vi que a escola tinha que ter um outro formato. Percebi que não dá pra deixar as crianças de 3, 4, 5 anos numa sala, quando no recreioacontecia o momento mais vivo, onde você via as crianças alegres, brincando entre si, os maiores e os menores. Por que não fazer disso uma constante da escola?

      Na escola tradicional se diz muito “não” às crianças. “Não” pra um começo de vida, que está ali com uma pulsão física, emocional, mental, querendo conhecer, explorar. Assim não dá. Também fui percebendo o ritmo das crianças. Notei que a mesma aula que era programada pras 8h, quando os alunos estavam cheios de energia, não podia ser programada pras 13h, logo depois do almoço, quando o corpo deles pedia outra coisa. O nível de concentração era outro. E os planejadores do nosso sistema de educação, quena sua maioria são mentes masculinas, e distantes de um contato direto com as crianças, não percebiam isso.
       
      A mulher tem uma percepção mais aguçada pros ritmos. O fato da gente menstruar, ter uma relação com a lua, ficar com o filho nove meses na barriga, nos dá outra sensibilidade. Não é que o homem não seja sensível, é que a nossa cultura poda o desenvolvimento dessa sensibilidade.

      Ju: e como você decidiu criar a sua própria escola (a Casa Redonda)?

       A Casa Redonda nasceu quando eu compreendi que a gente é um ser cósmico, que estamos dentro de um planeta que pulsa vida e que somos parte de um todo. Nesse momento entrei em desacordo com o sistema patriarcal, focado mais na racionalidade e que há milhares de anos domina o planeta, e me permiti não corresponder mais ao padrão cultural pré-estabelecido. Se você não presta atenção, vai se adequando à ele e, quando vê, tá precisando brincar de novo na vida.
       
      O nosso atual sistema é muito baseado no controle, num controle de produção, mas eu acho que a vida é muito mais inteligente do que a matemática. Queremos um mundo que nos controle ou um mundo onde a gente possa fluir com a vida? Nesse sentido, o feminino (não a mulher, mas o feminino em si) traz essa fluidez.
       
      A evolução é teimosa e a gente vai chegar lá porque ninguém quer ficar no lugar onde está. Queremos ter tempo pra conversar, brincar, sentir, ter mais tempo livre. Não nascemos pro trabalho, é um engano isso. Nascemos pra fazer aquilo que gostamos, e acho que 80% da humanidade trabalha com o que não gosta.

      Trabalhando dentro de uma escola fechada eu sentia falta do contato com o verde. Acho que o descolamento com a natureza é um dos fatores fundamentais pras crises existenciais que a gente tá vivendo. Porque na natureza você vê os ciclos, a mudança das estações, o crescimento das plantas, vê que a vida não é linear. E o contato com ela é um elemento fundamental pra descoberta do que é o feminino. Sinto que o universo pede à mulher que não abra mão da sua sensibilidade em relação à natureza externa e a dela própria.
       
      Escolhi uma chácara bem verde pra fundar a escola e pedi ao meu marido, que era arquiteto, pra construir uma casa onde entrasse muita luz do sol e da lua.
      Ju: Péo, vejo você como uma grande observadora do universo infantil. Me diz, como você observa a mulher nos seus primeiros anos de vida?
       
      Olha, vejo que as meninas assumem uma identificação muito grande com o papel da mãe e, nesse papel, elas são as poderosas. Uma das brincadeiras mais presentes na infância é a de construir a própria casa, porque a casa, pras crianças, é o materno.  Outra brincadeira é a de ser mãe. Como aqui temos crianças de várias idades, as meninas de 5 anos brincam que são mães dos meninos de 2, 3 anos.

      A Casa Redonda existe desde 1982 e eu tenho observado uma mudança nas meninas, que é um reflexo da mudança na maneira de ser das mães. Na década de 80, muitas delas optavam por deixar o trabalho pra ficar com os filhos durante os primeiros anos e isso vem acontecendo muito pouco agora. Hoje, elas deixam as crianças na escola pra irem trabalhar e, quando chegam em casa, precisam garantir os cuidados dos filhos, se tomaram banho, comeram, escovaram os dentes – não sobra tempo pra brincar. Isso se reflete nas brincadeiras de casinha, que na década de 80, 90 tinham um ritmo mais harmonioso e muito mais tranquilo. A criança fazia comidinha e cuidava do bebê com toda a calma do mundo. Hoje esse cuidar se transformou em mandar, elas vivem dizendo: “é hora de dormir, é hora de ir pra escola, é hora disso, é hora daquilo”. E o pequeno que está ali brincando aceita isso em um primeiro momento, mas rapidamente reage a esse comportamento autoritário e diz que não quer mais ser o bebê. E então, quando elas perdem os seus bebês, transformam meninos um pouco maiores em cachorros de estimação, amarrando uma corda na cintura deles e andando pra lá e pra cá, controlando-os. Isso me preocupa.

      As crianças chegam a verbalizar que querem duas mães, uma mãe que manda e outra que brinca. E essa mãe que manda tem sido incorporada cada vez mais pelas meninas, que muito cedo assumem uma postura determinada e autoritária. Vejo isso como um reflexo do estatuo social feminino de hoje: as mães já não se sentem realizadas somente com o seu lado materno, precisam ter o seu lado profissional também desenvolvido. Acontece que, nesse sistema econômico terrível, o lado materno acaba completamente suprimido. O desequilibro é evidente. A mulher é impedida de viver a sua gravidez com tranquilidade e a comunhão maior entre ela e a sua cria é conspurcada. E o tempo feminino, aquele tempo sem tempo, aberto, fluido, acaba se perdendo.
       
      Acho que a mulher entrou no universo profissional, patriarcal e se adequou ao raciocínio que já estava ali, deixando o modo de pensar feminino de lado. Pra poder competir, ela aceitou esse sistema mais racional, em detrimento de um caminho onde a dimensão sensível esteja presente. As crianças dizem que não querem aprender a ler porque, quando aprenderem, a mãe vai deixar de contar história. Na Hungria, descobriram que se pagassem a uma mãe um valor pra que ela mantivesse os seus filhos de até 3 anos em casa, seria economicamente melhor do que manter as creches.

      Ju: na Oca você tem muito contato com mulheres nordestinas e migrantes de várias partes do país. Que saberes elas trazem consigo?

      Essas mulheres são guerreiras e sobreviventes. Abriram mão de tudo que tinham, deixando pai, mãe, roça, identidade e cultura pra atrás, e vieram pra São Paulo em busca de trabalho pro marido, com 3, 4, 5 filhos. Hoje elas mantêm a casa, além de terem que trabalhar, de modo que os filhos vão sendo entregues aos irmãos mais velhos. A maioria delas é analfabeta.
       
      Me lembro de uma contando que, quando o marido arranjou outra mulher e a deixou com 5 filhos, disse assim “você vai continuar analfabeta a vida inteira”. E ela foi pra Oca pedindo pra aprender a ler, pra um dia dizer ao ex-marido tudo o que ela pensava. Essa moça tinha dentro dela uma força tão grande que aprendeu rapidamente. Como ela era mineira, foi lendo trechinhos do livro Miguilim de Guimarães Rosa queela aprendeu a ler na Oca. E ela se identificava muito. Quando lia sobre as frutas daquele lugar, as festas, a vida vinha de novo pra ela.

      São as mulheres aqui da periferia, onde fica a Oca, que sustentam as famílias, porque os maridos em geral são alcoólatras, drogados ou estão presos. Na hora que elas se alfabetizam, ganham uma nova consciência da sua situação e começam a se posicionar, não aceitando mais ter sexo só para descarregar tensões de um marido bêbado, por exemplo.
       
      O que acontece com esses migrantes, que aqui chegam deixando sua terra natal por questões econômicas, é de uma violência profunda: é o desenraizamento da sua cultura, de sua identidade – e com esse desligamento, eles e elas se desconectam da vida. No momento em que você faz uma ponte com a sua cultura de origem, esta vem com uma riqueza profunda. Hoje, as mulheres da Oca se transformaram em bordadeiras de renascença e criaram um grupo de mães, e você precisa ver essas mulheres falando: há um saber, que não é o saber da escrita, um saber de vida, que elas não tem onde expressar. Elas sabem se virar num mundo de escassez e são muito solidárias, o saber delas vem das situações corajosas de sobrevivência. Quando morre uma mãe ou um pai é preso por causa de drogas, a vizinhança assume aquelas crianças. Nessas situações a generosidade é exposta imediatamente. Isso é de uma riqueza humana extraordinária.
       
      Quero redigir a vida dessas mulheres. Um dia chamamos uma delas pra contar sua história e ela descreveu como era cortar cana no canavial apanhando do pai, tendo que estar na roça todos os dias as 5 horas da manhã. Os próprios filhos, que estavam ali ouvindo, não sabiam disso e ao ouvir passaram a respeitar muito mais a mãe. Os meninos da Oca, qualquer menino, dos 4 aos 15 anos, nos finais de festa pedem, sempre, pra levar comida pras mães.
      Eu me lembro de uma outra mulher, em um projeto que eu estava fazendo na Bahia, me dizendo assim: “Olha, eu tomo conta de 5 filhos, não tenho tempo de botar eles no colo, de contar histórias. Mas eu sei e eles sabem que a sopa que eu boto de noite pra eles tomarem é o meu abraço neles”. Eu fiquei arrepiada, ela era lavadeira e os clientes dela doavam peles de frango que sobravam pra ela fazer a sopa da noite. Ela dizia “Não me sinto culpada não, eu faço o que posso”. "Esse é o amor que dou à eles". Poxa, essa consciência é fantástica, e os meninos dela eram alegres, com uma capacidade criativa muito grande.
       
      Eu vejo que a gente menospreza uma população brasileira que tem saberes extraordinários guardados, e que a gente não utiliza esses saberes pra enriquecer a nossa cultura e a nossa visão de ser humano. Reverencio essas mulheres que com muito pouco sobrevivem, com um espítiro comunitário aberto ao sorriso, prontas pra ajudar quem precisar.  Essa disponibilidade para a comunhão com a vida está ali presente em uma força que, sinceramente, não é muito comum em outras classes sociais, onde o individualismo parece ser a regra do convívio entre as pessoas. A vida confortável e cheia das facilidades parece criar um empobrecimento, anestesiando os sentimentos que podem conduzir a uma fluência mais humana, mais solidária e mais fraternal entre as pessoas.

      Super obrigada especial para Maria Amélia Pereira e Rinaldo Martinucci, que nos cederam as fotos dos arquivos da Casa Redonda.

       
      09.03.17