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sua mochila está vazia

      Tag: taynara pretto

    • pras bandas de cá

      Eu acho que nunca, nunquinha, conheci alguém que não gostasse de música. E ainda bem, né? Porque, não sei como funciona com vocês, mas música pra mim é tipo combustível. Eu preciso conhecer mais, ouvir mais, ouvir sempre. E, toda vez que eu chego em algum lugar novo, procuro logo saber mais sobre sua música.

      A música tem um poder incrível de unir pessoas legais e, talvez por Maceió ser uma grande cidade pequena, quem circula pelos eventos da cena musical daqui acaba conhecendo com facilidade quem faz parte disso tudo. Foi assim, circulando, que eu acabei conhecendo as três bandas que tão nesse post: Yo SoyToño, Morfina e Quiçaça.

      Ah! E elas estão na playlist Sotaques no Spotify, viu? Vem ouvir

      YoSoyToño é o projeto solo de Antônio Oiticica, que nasceu no Rio mas tem alma alagoana, já que vive por aqui desde criança. Com um som mais indie/folk (bem diferente do estilo da Dof Láfá, banda da qual ele também é vocalista), YoSoyToño é sua versão mais minimalista e subjetiva. Sempre tranquilo e com um violão embaixo do braço, quando Toño toca nos convida a entrar “Na Sala” (nome da série que ele lançou em 2015, depois de uma temporada em São Paulo) e ficar de boa!

      Formada pelos amigos Igor Peixoto e Reuel Albuquerque, a banda Morfina nasceu em 2015. Com forte influência do rock dos anos setenta, muitos samples eletrônicos e uma pegada lo-fi super bem feita, a banda – que tem seu nome inspirado na também alagoana Mopho, uma das maiores influências do duo – gravou seu primeiro álbum, Farta Evanescente, todo em casa.

      Já a Quiçaça adicionou, com o seu “reggae rural”, o tempero do Agreste alagoano na nossa roda de prosa. Começando pelo nome, que vem de um tipo de vegetação tradicional do Sertão e do Agreste e que significa ‘mato rasteiro e espinhento; terra seca e estéril, de vegetação arbustiva, rala e baixa’, a Quiçaça traz, também no ritmo e nas letras, o DNA da sua terra, Arapiraca. Um presente bom pros ouvidos, a banda, que tem Ruan Melo, Rodrigo Cruz, Gleyson Matheus e Janu Leite juntos, canta uma realidade bem diferente, mesmo estando aqui do nosso lado (a 128 Km de Maceió).

      De Novos Baianos a Beatles, Mamonas Assassinas a Chiquititas, passando por Alceu Valença e chegando ao unânime Los Hermanos, todos cresceram cercados de estímulos musicais. Não foi à toa que, em algum momento da vida, escolheram entrar nesse mundo.

      Alagoas é um lugar cheio de coisas pra serem cantadas e fazer música por aqui é quase um ato de resistência (e persistência, com certeza). Como o estado é carente de leis de incentivo à cultura, muitas coisas só acontecem na base do “faça você mesmo”. Na verdade, dá pra dizer que a cena por aqui não é nem independente e, sim, interdependente, já que as bandas (e quem as compõem) precisam uma das outras pra fazer as coisas acontecerem.

      “O que eu acho legal do faça-você-mesmo é que ele gera um campo plural pela liberdade que ele te permite. Você pode fazer um lance cheio de identidade, com a sua cara e que vai atender a um grupo específico de pessoas. A gente consegue atingir um nicho, a gente tá formando um público e isso é interessante. O faça-você-mesmo também permite que você se envolva em todas as etapas. Você tem que ser o seu próprio assessor, produtor, motorista, o cara que faz a gravação, o cara que passa o som…”, diz Toño, que também está à frente da Muquifo, produtora que traz bandas independentes de todo o Brasil pra Maceió.

      Janu acha que existe uma linha muito tênue que separa o lado bom e ruim dessa realidade. “Concordo com o Toño quando ele diz que fazer parte de todo o processo é algo bom, mas também acho que muitas vezes a gente poderia aproveitar mais isso, sabe? Tornar isso uma troca maior e não uma competição, como rola às vezes. Tipo, um cara que sabe gravar ensina pra um que não sabe; um que tem experiência em produzir troca com outro que nunca produziu e por aí vai.”

      Além da realidade do faça você mesmo, aqui em Maceió as bandas e os produtores ainda contam com um fator imprevisível: o público. É muito doido como em uma cidade que é tão carente de eventos, de certa forma, ainda tem gente que reclama da falta de coisas pra fazer e mesmo assim não é capaz de sair de casa pra conhecer ou conferir algum evento com artistas locais. Em Arapiraca, os meninos falaram que a coisa é diferente: por ser uma cidade com menos eventos, quando acontece alguma coisa todo mundo vai. Ainda bem!

      Como em muitos outros lugares, uma super aliada da cena daqui é a internet. É por meio dela que a galera mostra o trabalho pra outros cantos do Brasil e do mundo. “A gente também tem que pensar que podemos ser maiores do que somos por aqui e jogar nosso trabalho na internet é uma forma de atingir outras pessoas minimamente. Seja por sair na lista de bons discos em algum site especializado, seja por aparecer na playlist da Farm; isso já é algo que faz o trabalho valer à pena!”, diz Igor.

      Alagoas é berço musical de músicos incríveis: a gente tem Hermeto Pascoal, gênio e um dos principais nomes da chamada “universal music”, tem Wado e Mopho (as bandas alagoanas que tão no topo da lista dos nossos entrevistados), tem Djavan e mais um monte de gente massa que precisa aparecer e ser lembrado. E no cenário independente, acredito que é a primeira vez em anos que a gente tem bandas muito boas e bem produzidas – de todos os estilos – fazendo nome por aqui e aparecendo em outros estados do Brasil. Só isso já serve de combustível pra que tudo continue acontecendo, seguindo nesse caminho.

      Afinal, inspiração pra criar é o que não falta por aqui. Ruan, vocalista da Quiçaça, mora na zona rural de Arapiraca e é de lá que sai a maioria das letras da banda. “É esse tipo de coisa que forma poeticamente a banda. A gente vai observando os personagens da cidade, ouvindo o que eles têm a dizer. Muitas letras são baseadas na linguagem dos comerciantes que vão passando de carroça, de cavalo. Às vezes é um vocabulário que nem a gente consegue identificar, aí surge meio que um trabalho de pesquisa mesmo, de procurar entender de onde vêm as expressões, o que elas querem dizer.”, conta.

      Já Toño diz que “em Maceió, às vezes a gente vive muito na superfície, se acomoda naquela superficialidade, fala do que tá mais perto, do que tá sempre ali. Acho que a gente tem que aproveitar a riqueza e as diferenças da cidade e se permitir mergulhar”.

      E o sotaque, gente? “O nosso sotaque diz quem a gente é, de onde a gente vem. É o nosso natural. Não adianta forçar falar de um jeito diferente na hora de fazer música porque acaba ficando artificial”, fala Reuel. E é isso mesmo, né?

      Vale lembrar: nesse fim de semana o Toño toca com a Dof Lafá no Festival Mormaço, e a Quiçaça se apresenta no evento Um Pelo Outro #2. Não dá pra perder, né? 

       *Agradecimentos especiais ao querido Duda Bertho pelas fotos desse dia cheio de sorrisos.

      17.05.17
    • mulheres com sotaque: Arielly Oliveira

      Alagoas é uma terra recheada de mulheres fortes. É berço da resistência negra, terra de Zumbi dos Palmares e de gente que luta diariamente pra ser visto, que fala mais alto pra ter sua voz ecoada. Foi assim, ouvindo a voz alta de quem tem muita coisa pra falar, que eu conheci a rapper Arielly Oliveira, na metade de 2016, durante a pesquisa pra um documentário sobre rap maceioense.
       
      Ela começou no reggae quando tinha 15 anos e, em 2007, teve seu primeiro contato com o rap fazendo backing vocal pra um grupo chamado NaHumilde. “Na época, não entrei com tanto amor, entrei mais porque gostava de cantar. Mas aí fui conhecendo melhor o rap e aprendendo que não era apenas uma música, mas sim o grito de pessoas ameaçadas por um sistema que sempre excluiu o povo pobre e negro das periferias de toda essa engrenagem e fui vendo que eu fazia parte disso, dessa exclusão. Com essa consciência, tomei amor e respeito e fui fazer de coração”.

      De uns anos pra cá, Arielly se deu conta que o lugar de mulher não é só fazendo backing vocal. Aos 29 anos ela decidiu iniciar uma carreira solo por aqui, afinal, já tava na hora de mostrar a sua cara e dar voz aos próprios sonhos e angústias. Não foi fácil começar e não é tranquilo seguir com essa escolha.
       
      “É difícil encontrar um lugar no movimento. É difícil segurar a onda com a família e também cantar aos olhos da sociedade. Quando entrei no movimento hip hop, não tinha maturidade pra perceber as atitudes machistas. Não entendia que ser colocada como backing vocal, sempre de fundo era, muitas vezes, uma atitude machista. Lembro de algumas frases que me fizeram enxergar que o movimento e a sociedade sempre estavam ali culturalmente pra me fazer parar: ‘sua voz não serve para rimar’, ‘e sua filha, com quem você deixa?’ Nossa … Além de olhares de pessoas que não me viam como artista” – desabafa.

       

      Eu tive todos os motivos do mundo pra parar, mas os mesmos motivos que quiseram me frear me fizeram ter força para continuar e provar que sou boa no que faço! Acho muito importante que as mulheres possam se fortalecer, quebrar esse tabu, se jogar mesmo na cena sabendo o que querem e sendo inteligentes. O machismo no Nordeste é muito forte! Culturalmente falando, os homens se sentem as cabeças de tudo e algumas mulheres reproduzem o machismo achando que realmente tem que ser assim. E não tem! Essa não tem que continuar sendo a nossa realidade!”
       
      Se já não é a coisa mais fácil do mundo ser mulher, quem dirá ser mulher, negra e mãe na periferia de uma cidade que já foi considerada uma das mais violentas do mundo. É por isso, também, que Arielly é um super símbolo de força pra mim. Ela resiste, diariamente, a coisas que eu não tenho a menor ideia de como conseguiria resistir.
       
      Introvertida à primeira vista, ela se transforma quando solta a sua voz empoderada. Quando pergunto o que a faz criar, ela me diz: “é justamente a FALTA. Falta tanta coisa pra nós. Saúde, educação, amor, paz, segurança… Quando falo sobre essas coisas não falo isso apenas como mulher, falo como ser humano mesmo. Minha vida não foi fácil e nem é! Acho que também é um dos motivos que me faz escrever. Sempre fui uma pessoa tímida, ruim de comunicação e escrever era uma oportunidade que tinha de me expressar. Juntei o que eu gosto de fazer (cantar) com minhas necessidades (falar).”

      Nas suas letras, nos discursos dos seus shows e nas redes sociais, Arielly se firma cada vez mais como uma voz feminista em Alagoas. Pra quem, há poucos anos, não conseguia enxergar atitudes machistas diárias, ela conta que foi a internet que a ensinou e a fez entrar com tudo no movimento.
       
      O feminismo me ajudou muito! Eu lia os posts de mulheres que já conheciam a luta de uma forma mais ampla e via que elas não tinham medo de falar como sofriam. Eu fui me fortalecendo, perdendo o medo, me defendendo em casa – lugar onde o machismo era muito intenso e me fazia muito mal. Assim comecei a desabafar em minhas letras e vi que esse era realmente o caminho para o meu fortalecimento e para o combate ao machismo que sofria e sofro até hoje.”
       
      Seu rap é cheio de sotaque (e a gente ama isso!) e ela acredita que algumas coisas diferenciam o rap de Maceió do rap de outros lugares do Brasil. Aqui, ela diz que o rap tem choro, tem amor, tem verdade, ousadia e resistência. Fala de dentro pra fora, com eita e oxe!

       
      Se tem outra coisa que me deixou encantada com a Arielly, além da música, é a relação dela com a filha, Gabi. Enquanto conversávamos, numa pista de skate no bairro onde ela mora, Gabi andava de patins e, vira e mexe, aparecia pra conversar com a gente também.
       
      Tenho muita vontade de ser mãe, mas me pergunto o quanto deve ser difícil criar filhos e preparar uma filha pra esse mundão doido que a gente vive. Mas, sobre isso, ela me dá mais uma lição: “Gabi se espelha muito em mim e eu não perco a oportunidade de mostrar como o mundo é de fato. Pela pouca idade que tem, vejo que ela se empodera muito rápido. Já tem uma identidade, sabe que é negra, sabe que tem muita gente má. E assim a gente cuida uma da outra!

      Sobre suas grandes influências, Arielly conta que são as mulheres negras, claro, que mais a inspiram! “Na música a mulher que tenho como referência é a Diana Ross, simplesmente por seu amor a música, seu jeito sexy e ousado que sempre achei muito foda pra época dela. Fora da música, sou apaixonada pela luta, força e coragem de Angela Davis. Conhecendo a história dessa mulher, vi que a luta feminista e o movimento negro são batalhas grandes”. E as rappers nordestinas, alguma? Ela diz que não podemos deixar de ouvir Camila Rocha e Afronordestinas, da Paraíba e Relato Verdadeiro, de Sergipe.

      A força da Arielly e da música caminham juntas e, juntas, servem de inspiração!
       
      “A música é meu ponto de equilíbrio; um dos motivos de minha sobrevivência! Acho que não estaria viva se o rap não tivesse me encontrado e segurado em minha mão. É a música que me fez mulher, me ensinou a me defender, me ensinou meus direitos, me ensinou a enxergar meus erros e levantar a cabeça e bater o pé com força e falar o que acho certo! Me sinto muito emocionada e privilegiada por fazer parte de tudo isso e por ter dado a volta por cima, mesmo em um movimento tão machista. Hoje tenho meu trampo lindo, com quem quero, pra mostrar que somos livres, que há tempo e que devemos nos unir sempre!

      *** Agradecimento especial ao Levi Yuri pelas fotos p&b. Fotos coloridas por Taynara Pretto.

      10.03.17
    • tomo um banho de… cinema!

      A Taynara Pretto, nossa colaboradora lá de Maceió, é quem nos conta sobre o Circuito Penedo de Cinema e o que viu de melhor por lá!

      "Eu sempre soube que a arte, nas suas mais variadas expressões, tem o poder de unir as pessoas e, na última semana, durante o Circuito Penedo de Cinema, vi o quanto isso é verdade. Embarquei rumo a cidade histórica de Alagoas, uma das mais antigas e charmosas do estado onde, pela primeira vez, o documentário que foi resultado do meu trabalho de conclusão de curso em jornalismo da faculdade seria exibido e estaria concorrendo em um festival".

      Minha Palavra é a Cidade conta sobre quatro cantores de rap e a relação de cada um deles com Maceió. A Tai, que já estava mega feliz – e nervosa – por mostrá-lo pra além da universidade, mal sabia que essa experiência seria ainda mais do que participar de um festival de cinema. 

      Neste ano, o Circuito Penedo de Cinema abrigou vários eventos: o IX Festival do Cinema Brasileiro, que retornou a Penedo depois de 34 anos; VI Festival de Cinema Universitário de Alagoas; III Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental e o VI Encontro do Cinema de Alagoas; e levou pessoas importantes da cena audiovisual do país, como os diretores Beto Brant e Lírio Ferreira e as atrizes Alice Braga e Bianca Comparato.

      Durante cada dia de evento eram exibidos mais de 12 filmes, entre universitários ou não. Então, todos os dias, universos dos mais variados temas eram apresentados e todo mundo era tocado de diferentes formas. Ingrid, do diretor MaickHannder, de Minas Gerais, é um documentário experimental e supersensível, em preto e branco, que trata da relação de uma trans com seu corpo. Já Obra Autorizada, do baiano Iago Cordeiro Ribeiro, outro que entrou na lista de preferidos da gente, fala sobre uma construção tombada e esquecida e a relação das pessoas que passam por ela (algo que a Tai identifcou muito, já que Maceió é cheia de obras desse tipo).

      "Acho que é impossível não se encantar por Penedo. Ela é uma típica cidade histórica tomada por museus e igrejas dos séculos XVII e XVIII, mas tem um detalhe que faz toda a diferença: fica na beira do Rio São Francisco!".

      A participação da população foi incrível e, praticamente todas as noites, as cadeiras que faziam parte da tenda montada na praça principal estavam preenchidas por moradores da cidade. Depois de dias assim, conhecendo histórias e personagens reais ou criados, convivendo com pessoas do Brasil inteiro, compartilhando experiências, sotaques, banhos e passeios de barco no Velho Chico  fica até difícil voltar pra realidade. O gostinho de quero mais tá bem presente por aqui!
       

      07.12.16