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sua mochila está vazia

      Tag: domitila de paulo

    • mulheres com sotaque: Domitila de Paulo

      Cheguei na casa, na zona norte de BH, com a ajuda dos vizinhos. O primeiro me avistou meio perdida e já se prontificou a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Falei que procurava por Domitila e ele apontou o caminho para esquerda, apesar de não ter certeza sobre esse nome. "Deve ser a filha de Denise". Eu segui e o número não batia. Do retrovisor do carro, o mesmo senhor de camisa azul corria com dificuldade e com a mão na testa, fazendo sinais de lamento. "Ô moça! Cê me desculpa! Não é pra esse lado, não. Eu te passei informação errada. Óh procê vê! Cê me desculpa, viu? A casa dela é para o outro lado. Aquele portão preto lá adiante, debaixo da árvore, do lado da bar". Enquanto eu ria e dizia que estava tudo bem, outro vizinho aparece pra ter certeza de que agora as informações estavam claras e eu certamente conseguiria chegar até a outra esquina em paz, pra encontrar quem precisava.

      Surpresa com tanta atenção e boa vontade, eu só agradeci e avisei à minha entrevistada que estava na porta. 

      Domitila sai com suas longas madeixas coloridas, já rindo da movimentação. Conto para ela da surpresa de ser recebida assim e ela comenta, naturalmente: "Na comunidade é desse jeito", rindo. Que bom. Estava em casa. 

      Demos meia volta pelos cômodos, vi o cantinho onde ela produz e acatei a sugestão de ficar na cozinha: "É o meu lugar preferido", ela disse. Tirei da sacola um saco de pão de queijo e uns docinhos. Com copos de suco e café, a gente começou a longa conversa entre duas meninas cheias de sonhos, criativas inquietas, de pele preta e sorriso um tanto fácil

      "Eu sempre quis produzir coisas. Na faculdade, era aquela pessoa da moda que tava sempre no ateiler de design de produto e estamparia, suja de tinta", conta. Domitila de Paulo se formou em Design de Moda mas isso está bem longe de dar conta de toda sua produção criativa. Depois de fundar uma marca de meia calças estampadas durante o curso, ela ocupou vagas de estilista e designer em marcas importantes e, quando tudo parecia estável e seguro, surgiram muitos questionamentos. 

      "Eu comecei a questionar se estava sendo representada pela minha própria marca ou pelas marcas em que eu trabalhava. Eu queria ampliar as narrativas e entendi que, pra isso, precisava retomar meus processos". Quase como uma poesia da vida, juntar recortes e criar novos cenários ganhou toda a força no seu processo criativo e ela voltou a produzir colagens analógicas. Primeiro, protegendo pra si tudo que fazia: "Colagem pra mim era como se fosse um grande diário. Fazia e guardava. Comecei a mostrar alguma coisa, levei pra uma imersão de afrocriadores em São Paulo, onde conheci pessoalmente a Tássia Reis. Depois de um ano, simplesmente em uma tarde, ela me mandou uma mensagem dizendo que estava apaixonada pelo meu trabalho e que queria muito que eu fizesse a capa do novo EP dela". O álbum, que ganhou o nome Outra Esfera por causa da colagem, apareceu na lista dos seis melhores discos lançados em 2016 (Correio Braziliense). 

      "Minha mãe sempre foi militante do movimento negro. Pra mim e pro meu irmão, a consciência racial sempre esteve dentro de casa. Mas há uma diferença quando tem a ver com a sua mãe e quando tem a ver com você mesmo. É uma construção interna", conta. Na mesma época em que retomou as colagens, por indicação de sua mãe, ela leu o livro Igbadu – A Cabaça da Existência, e tudo fez muito sentido. "O livro é um conto lindo sobre os Orixás na criação do Aye (mundo em que vivemos). Eu vi que tinha muito a ver com as colagens e fui incorporando aquilo no meu trabalho. E assim surgiu a série Deusas no Orun, que traz a relação entre mulher, natureza e universo"
      No seu processo criativo, Domitila tem a liberdade de buscar os elementos que deseja. Se no acervo tiver muito céu, talvez seja o momento de buscar água. Se faltarem estrelas, dá pra recortar uma galáxia inteira pro fundo de uma paisagem cotidiana. E por ser uma arte analógica, tudo começa pelo garimpo. São horas visitando sebos, inclusive em viagens, lutando contra a rinite e buscando livros de geografia e revistas. Imaginando essa possibilidade de criar quase um novo mundo com suas próprias mãos, pergunto como ela construiria esse lugar caso pudesse transpor seus sentimentos pra vida real: "O mais incrível na colagem é que ela é o resultado da soma entre imagens distintas. Cada uma vem de uma publicação, época ou estética diferente. E quando se encontram, narram uma nova história onde todas se tornam igualmente fundamentais. Pra mim a gente já vive isso na relação com as pessoas e com o espaço, já que cada um tem a sua propria relação com o tempo, carregando suas vivências e trazendo um repertório único. O que falta é o respeito com a vida e a história de cada um pra alcançar essa mesma harmonia, que pode existir livremente no papel".

      Foto: Pablo Caldeira / Modelos: Lais Lacôrte e Pedro Hbs

      BAPHO

      O carnaval de rua em BH ganhou muita força nos últimos anos. E um pouco antes da festa, Domitila criou uma linha exclusiva de brincos, novamente, garimpando diversos materiais em suas andanças. E foi um Bapho! "Na primeira leva, produzi cerca de 35 brincos. Na segunda, entre 60 e 70. E tudo sozinha. Foi muito legal ver a rapidez do negócio: em 48 horas, 30 estavam esgotados. No segundo momento, em 40 min, 21 estavam vendidos. Também fiquei muito feliz com Liniker e Tássia postando fotos e usando nos shows".

      Foto: Pablo Caldeira / Modelo: Mayra Motta
      O processo criativo das pessoas me encanta. É muito superficial definir alguém pela profissão e pelas atividades que ela faz, mas o processo diz muito sobre essa verdade. A Domitila, por exemplo, disse: "Tenho uma metodologia que se repete sempre. Acredito que a gente pode fazer com o que tem. Olhar para si, entender a sua narrativa. Não precisa ir longe e achar que o universo criativo é intocável. Entender quem você é e a identidade do que você produz, é o que torna sua produção única".

      Como mulher negra e criativa, Domitila acredita que ser representada numa imagem final é muito válido, mas é preciso ir além: "Gosto de ver a ficha técnica do que é relevante. Quero ver quem está por trás das produções porque ocupar esse espaço ainda é um longo caminho. Eu quero ver mais do que capa de revista, quero ver pessoas negras nas equipes criativas, na diretoria, decidindo e produzindo o conteúdo que vemos. Só assim teremos representatividade de verdade na moda, arte, cinema, etc. Assim como na política, só tendo a gente lá pra que existam leis pra nós. Nós precisamos ocupar esses espaços para que nós mesmos falemos por nós".


      Foto: Pablo Caldeira / Modelo: Milena Badu
      Com toda a força do movimento feminino, me identifiquei muito com essa conversa. Sororidade é poder tirar horas do seu dia pra ouvir a história de outra mulher e se sentir próxima, recortando e colando pedaços da sua própria vida que se conectam de alguma maneira com a dela. O pão de queijo já tinha acabado quando chegamos nos últimos minutos da conversa. Mas ainda deu tempo de sentir essas palavras como um abraço: "O feminino está pra mim de forma muito natural e é a base, como a água. Às vezes, fluida, às vezes forte, mas sempre presente. O trabalho acaba sendo um espelho e me sinto muito entrelaçada à energia feminina (que pode ser múltipla). Seja pelo que me toma e inspira, seja pela narrativa, ou histórias que trago pro meu trabalho. Tratando de imagens, acredito que a natureza por si só é uma das expressões mais fortes do feminino". 

      Pra ficar mais por dentro dos trabalhos de Domitila, é só seguir ela no instagram

       
      13.03.17