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sua mochila está vazia

    • carnaval das minas

      Carnaval nunca foi minha festa preferida. Minha aptidão pra gostar dos mistérios da vida sempre me afastou um pouco dessa alegria fácil e solar da folia. Eu raramente me sinto à vontade pra dançar e pular em público, extravasando essa energia contagiante que é a minha principal foto imaginária desse momento do ano. 

      Mas tudo mudou quando resolvi passar o carnaval em BH e, lá em 2013, a cidade, que parecia abandonada nessa época, deu seus primeiros passos carnavalescos diante dos meus olhos ainda resistentes. Lembro de ter intercalado bloquinhos de rua e Netflix, ainda sem acreditar que a cidade estava mesmo pronta pra oferecer tudo que poderia. 


      Foto: Amarante Filmes

      Nos anos seguintes, cada vez mais amigos trocaram as viagens pra Diamantina, Salvador, Rio e outros destinos cobiçados pra ficar aqui. Esse ano, a expectativa de público chegou na casa dos milhões e a prefeitura registrou mais de 300 blocos saindo pela cidade  Então a regra é juntar o seu bando de amigos e fazer escolhas, ou sair pra rua sem combinar nada com ninguém, mas com a certeza de que vai encontrar todo mundo. Como mágica, abraços suados e cheios de purpurina começam a acontecer durante o trajeto. 

      Eu descobri nesses anos seguintes que eu gosto mesmo é desse encontro. Dos sorrisos, da liberdade de misturar todas as poucas roupas coloridas que tenho no armário. Da surpresa que é encontrar seu cliente mais conservador usando peruca rosa e sua dentista de meia arrastão.

      O carnaval nunca foi minha festa preferida mas levaram meu coração pro bloco, esfoliaram a minha pele com glitter, ocuparam meu quadrado com mais de dez pessoas, me ofereceram Catuçaí do Nandão, abriram espaço pra protestar contra o assédio e o machismo e aí, não teve jeito: esse amor cresceu forte dentro de mim.

      BH teve um carnaval de resistência e de muita força feminina. Nosso carnaval, mais do que nunca, foi e é um carnaval das mina. Das que organizam bloquinhos cheios de ativismo (Sagrada Profana, ClandesTinas, Bruta Flor), das centenas que produzem e tocam o xequerê colorido, o tambor, os metais e toda a bateria, carregando instrumentos ladeira acima e abaixo. Das que se protegem e se ajudam, das que se empoderam no short mais curto, nas poucas roupas, na liberdade de se vestir de si mesma.

      Todos os anos,levei minha câmera e registrei o que vi nas ruas. E esse foi, sem dúvida, o mais bonito de todos. Minhas lentes não capturaram os momentos de assédio, de violência e  homofobia. Mas é triste saber que eles existiram e que ainda há muito a caminhar. Mas eu vi Cristal, nossa pérola afro brasilis, abrir caminho no bloco Garotas Solteiras pra derramar suas palavras de luz. Todo mundo sentou pra ouvir ela interpretar Beyoncé e explodiu a bateria com o melhor do pop no ritmo de batuque. Vi uma corrente de mãos dadas criando espaço pra uma senhora que se divertia no meio do bloco, sentada em sua cadeira de rodas, acenando pra aqueles jovens malucos. Vi as marchinhas se posicionarem com gritos políticos e vi mamilos cobertos só de tinta dourada. 

      Nosso carnaval é um lembrete de que a cidade não é o eixo centro-sul. As pessoas não são só o que a profissão delas anuncia. A chuva não é um impedimento pra sair de casa. Axé merece todo nosso respeito, especialmente o dos anos 90. E é pra respeitar as manas, monas, minas e manos o ano inteiro. 

      Carnaval é a minha festa preferida. Eu amo a sensação de pertencimento que é se locomover por tantas ruas da cidade, ocupando aquele espaço que é sempre só dos carros. Inventar e fazer minhas próprias fantasias e adereços de cabelo com a ajuda da minha mãe. Amo a liberdade de amar o meu corpo como ele é e ter coragem de sair nas ruas só de body. O que sinto é que a resistência continua. Talvez com um pouco menos de glitter, sem cílios postiços ou pele muito a mostra. Mas eu quero viver nessa cidade. Quero fantasiar o ano inteiro de Carnaval. 

      Belo Horizonte, você me deu um novo amor de presente e agora não tem volta. Ainda bem. 
       

      Depoimentos de quem faz:

      Foto: Carlos Hauck

      Bruna Rodrigues se arriscou faltando pouco tempo pra a folia e aprendeu a tocar Surdo: "Eu sempre participei como foliã, mas queria conhecer esse outro lado da bateria. Ver muitas mulheres tocando foi o que me inspirou demais. Faltando um mês eu comecei a participar de oficinas (criadas por outras mulheres pra se ajudarem) e aprendi a tocar o Xequerê. Mas logo decidi arriscar nos graves e foi muito empoderador! É um instrumento grande, pesado e, apesar de nunca ter tocado nada, consegui. E é emocionante. O grave bate dentro no coração"

      Tati Marques tocou em 15 (!!!) blocos diferentes esse ano: "Em BH é muito lindo porque a gente integra diferentes pessoas, diferentes culturas. Esquenta a nossa alma e dá uma felicidade gigante, parece que você tá prestando um serviço. Meus maiores amigos hoje são os que fiz tocando no carnaval. Foi desafiador, foi difícil, mas é uma das experiências mais incríveis que já tive"
      07.03.17