• Tire suas dúvidas sobre pedidos, trocas e devoluções.
    Atendimento nos dias úteis das 9h as 18h.
  • Receba dicas de estilo, via Whatsapp, para realizar uma compra personalizada!

sua mochila está vazia

    • arte é ser

      Esse é o meu último ano como jovem. Segundo a Assembleia Geral das Nações Unidas, quando eu completar vinte e cinco, em julho, serei adulta. Não existe um dia do ano pra celebrar essa fase. Mas existe o dia do Jovem, que, também segundo a AGNU, acontece entre os quinze e vinte quatro anos e é quando a gente "começa a apresentar sinais de maturidade diante da vida”. Por esses parâmetros, eu poderia ter 85 anos de idade. Às vezes, 5.

      Desde sempre, me sinto mais atraída por conversas com pessoas mais velhas. Aquela ideia de que as rugas aparecem junto com a sabedoria. Ou talvez seja reflexo do meu sotaque mineiro, que nos pede pra respeitar os mais velhos e tomar a bênção antes de sair de casa. Se a minha juventude acabasse mesmo em alguns meses, eu teria sido uma péssima jovem. Muitas noites de vinho e Netflix em casa. Muitos dias de calmaria, livros, cházinho e vinil rodando na vitrola nova que imita uma antiga. Poucas madrugadas de balada e de assistir ao sol nascer com minha gangue de almas juvenis e brilhantes. Mas eu sei que não é (só) sobre isso. Eu sinto, e é também uma busca, que tá tudo bem não viver rápido e morrer logo (live fast die young). A vida também acontece devagar.

      Desde sempre, eu quero conversar com pessoas mais velhas. Mas tenho me curvado em admiração pelas gerações que chegaram, e que têm colocado tantas certezas de cabeça pra baixo. E é por isso que convidei Maria pra tomar um café comigo.

      Eu a conheci num projeto que abraçava iniciativas locais e prometia acelerar a veia empreendedora dos produtores inscritos. Cada um tinha um repertório diferente mas, de algum jeito, parecido. Todos contaram dos vários lugares por onde passaram, as experiências em empregos frustrados, as viagens que alertaram pra um novo rumo, um basta pra viver o sonho e a semente de uma ideia que chegou pra se brotar ali. Uma tentativa um pouco desesperada de finalmente fazer dar certo, viver do que se ama e nunca mais ter que trabalhar – nem um dia sequer. Sabe aquela história?

      Então chegou a vez da Maria Trika se apresentar. Grandes olhos azuis, um rosto delicado e fala doce. Cabelo curto e loiro, jeito tímido mas muito seguro de si. Ela contou que tinha uma marca e que a proposta era criar com o que já existe no mundo. A marca dela tinha um propósito, tinha identidade, era autêntica e ela não parecia ter a mesma pressa que nós. Lembro de ficarmos todos em choque. O silêncio se quebrava com suspiros incredulous diante daquela menina, na época, com 17 anos.
       

      Fiquei boba. Juntei todos os meus planos e sentei com as pessoas que ainda comentavam sobre aquele sentimento injusto e humano de se comparar com o outro: “O que é que eu fiz com a minha vida até aqui?” O projeto seguiu e eu encontrei com Maria esporadicamente pela cidade. Durante os anos em que migrou de uma escola pra outra, Maria ajudou na realização do documentário Cabelo e Identidade (Occhi Observatório), participou de exposições, criou a Vore de moda sustentável, a Kara, espaço para criar maquiagens artísticas, se tornou fotógrafa e co-criadora de um cineclub chamado CineLixo. Foi numa tarde regada a café forte, seu preferido, que fui entender melhor de onde vem tudo isso.
      Maria Horta Alves tem 19 anos hoje. Mas isso pouco importa. “Não estou alinhada a minha idade física, nem nunca estive. Sinceramente, nunca sei ao certo quantos anos tenho ou os outros têm. Juventude pra mim é ter o espírito livre, é viver mesmo com a incerteza, estar presente ali, sentir a vida, abraçar e, principalmente, amar cada mísero segundo que, inevitavelmente, vai acabar e morrer”.

      Minha curiosidade sobre ela tem muito de uma busca pra entender o que é arte. Esse termo que é supervalorizado e banal, ao mesmo tempo. E nessa busca, eu amo encontrar pessoas que parecem caminhar nesse espaço criativo em tudo que fazem. Pra Maria, “arte é saber lidar com abismo,  não negar o caos, a insegurança, os buracos que habitam em nós, a ânsia. É criar um movimento aberto, deixando um pouco de espaço pra que o outro consiga entrar e dar continuidade a ele”. Na mesma conversa, ela me contou que cresceu num ambiente fértil, que seus pais têm uma sensibilidade muito forte e que por isso, a arte sempre foi uma presença interna, enraizada. E quando perguntei o que mais a faz se sentir jovem, a resposta veio naturalmente linda: “Fazer de algo, um ato, gesto, um fenômeno autoral”.

      É incrível como isso se manifesta de muitas formas no que ela faz. Já falei por aqui que processos criativos me encantam. E o que se repete em tudo que ela produz é uma conversa interna pra saber “se aquilo é um gesto meu, se estou partindo de mim pro outro e não o inverso”, conta.

       A gente se encontrou pra fazer os retratos dessa entrevista na casa recém ocupada por ela e pela empresa/coleção de arte do seu pai. Era preciso registrar seu processo e dar conta de mais de uma Maria. Porque somos muitas e imagem nenhuma consegue nos definir por completo. “Tenho duas vertentes fortes de estilo. Uma delas é mais íntima, mais pessoal, mais Maria. Com roupas leves, confortáveis. O outro é um estilo totalmente pavoa (tipo o pavão animal mesmo, mas sem a finalidade de seleção sexual). Encarno uma personalidade estética, meio monumental, bagunçada, excêntrica, meio Ney Matogrosso. Ainda é bem eu, mas um outro eu, mais externo, aquele que o outro vê e que disfarça o físico de boneca de porcelana, no qual insistem em me limitar”, explica. De Maria simples à Maria pavoa, foram quase 2 horas de frente pro espelho. Observando o desenho do seus olhos, misturando as cores no pincel e desenhando o seu rosto. Entre um passo e outro, fomos conversando sobre a vida.

      Com a liberdade que sempre lhe foi dada em casa, Maria teve o privilégio de experimentar muitas correntes no seu processo de educação. Estudou em uma escola alternativa, voltada pra pedagogia do afeto. Passou um tempo em uma escola técnica de administração, frequentou uma instituição católica tradicional e paralelamente, fez vários cursos livres. Faltando dois anos pra se formar, ela encontrou o seu lugar na Casa Viva, uma escola que nasceu de um movimento idealizado por um coletivo de professores em favor de uma educação transformadora: "Lá a minha vida mudou através de movimentos e descobertas repletos de potência e de carinho”. Na educação, mora uma das minhas maiores esperanças pro futuro – um futuro de mais acesso e de mais possibilidades de escolha. “Foi lá também que consegui perceber mais sobre a forma de educação que acredito. Sensível, de pequenos movimentos e resistências de potências enormes, onde se tem liberdade pra descobrir e explorar sua forma de ser e, principalmente, uma educação que se faz junto”.

      Maria Trika tem 19 anos. Mas as vezes não. Ela parece uma boneca mas é muito maior do que isso. E já disse que não pretende se tornar adulta, “fase de uma desistência de si, quando aceitamos coisas, largamos outras, esquecemos que tudo é uma escolha, nos fechamos, endurecemos, nos enterramos”.  Mas não tem medo de crescer até porque não é preciso que isso aconteça pra que ela seja, desde já, o que quiser ser: “Crescer é muito bonito, é movimento! E é interessante, porque se ganha mais autonomia, responsabilidade e suas escolhas começam a ter mais força e peso. É desesperadamente legal”. 
      Esse é o meu último ano como jovem. E também o primeiro. Como é incrível poder aprender com pessoas diferentes e se inspirar com trajetórias de vida curtas ou extensas. Eu quero ser jovem até o último fio de cabelo branco, se me for permitido pela idade. Mas quero mais ainda me permitir ser jovem todos os dias. E livre pra ser simples ou pavoa. A liberdade talvez seja o nosso maior termômetro de juventude. 

      Texto e fotos por Lara Dias.
       

       
       
      14.04.17