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sua mochila está vazia

    • papo de amor com regina navarro

      Celebrar o amor é sempre.
      E hoje, no dia dos namorados, a gente procurou a Regina Navarro, psicanalista e escritora carioca que há mais de 45 anos trabalha com terapia individual e de casais. Ela é um sabe-tudo do amor hehe e tem a temática como protagonista da sua linha de trabalho. Papel e caneta em mãos pra anotar essas dicas, ein!

      Quando você começou a protagonizar a temática do relacionamento na carreira? Como isso foi acontecendo?
      Tenho consultório há 45 anos. No início da minha carreira eu só atendia os pacientes e dava aula de Psicologia, na PUC. Após 20 anos me dei conta de que as pessoas sofriam demais com seus desejos, fantasias, culpas e medos ligados ao amor e ao sexo. Aí decidi mergulhar no estudo das relações amorosas. Tive programas de rádio, colunas em jornais, passei a dar palestras e escrevi 12 livros sobre o tema.

      Vc acabou de lançar um livro que fala sobre as novas formas de amar. Resumidamente, como o amor tem sido manifestado hoje em dia na sua opinião?
      O amor é uma construção social; em cada período da História se apresenta de uma forma. O amor romântico, pelo qual todos anseiam, e entrou pra valer no século 20, traz a ideia de fusão – duas pessoas vão se transformar numa só, nada mais lhes faltando. Ocorre que a busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso; prega que os dois se transformam num só, havendo complementação total entre eles. Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos. Esse tipo de amor está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Por isso, está se abrindo um espaço para novas formas de amar – poliamor, relações livres, amor a três, etc…

      A nossa sociedade tá preparada para isso?
      Imagina se pudéssemos fazer uma visita aos anos 1950/1960, e chegando lá disséssemos que algumas décadas depois as moças não mais se casariam virgens. Iriam nos chamar de loucos; diriam que a sociedade não estava preparada pra isso. Afinal, a virgindade era um valor. O mesmo ocorreria se disséssemos que algumas décadas depois a separação de um casal seria comum. Naquela época,  a separação de um casal era uma tragédia familiar; muitas escolas não aceitavam filhos de pais separados. Isso não mudou?

      O que vc tem observado de mudança nos últimos tempos no consultório?
      De aproximadamente cinco anos para cá passei a receber casais trazendo novos conflitos, que ocorrem porque uma das partes propõe a abertura da relação —  partir para uma relação não monogâmica — ou então uma nova prática sexual. A outra parte se desespera com essa possibilidade, se sente desrespeitada, agredida, não amada. Numa relação amorosa se você faz qualquer coisa sem vontade, só para agradar o outro, é péssimo. O preço cobrado depois, mesmo que inconscientemente, pode ser tão alto que inviabilize a própria relação.

      E é tão difícil, né? No seu livro “Novas Formas de Amar” você destaca a importância de as pessoas preservarem a individualidade. Você critica a ideia de “encontrar alguém que me complete” de não ver o parceiro como nossa “outra metade da laranja” – e a gente cresce acreditando nissi. Por quê?
      Uma das características fundamentais para uma boa relação amorosa é se livrar da ideia de fusão e preservar a distinção entre si próprio e o outro. A pessoa amada é vista e aceita como tendo uma identidade inteiramente separada do parceiro, o que favorece a relação. Entretanto, é bastante comum não se perceber nem se respeitar a individualidade do outro, o que gera desentendimentos e sofrimento. O respeito à individualidade do parceiro, como o fato de cultivá-la, mesmo com o risco de separação ou perda é fundamental. A vida a dois se complica quando um dos parceiros tem tanto medo da solidão, é tão dependente, que se agarra ao outro como um náufrago.

      É possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?
      Acredito que podemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com a mesma intensidade ou não. O poliamor, prática amorosa que vem crescendo, defende a possibilidade de se estar envolvido em relações íntimas e profundas com várias pessoas ao mesmo tempo, no mesmo nível de importância. No Poliamor uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas. Muitas pessoas têm dificuldade em aceitar essa possibilidade porque o mito do amor romântico, que ainda povoa as mentalidades do Ocidente, prega que um só tem olhos para o outro. Assim,  o amor sem exclusividade não é entendido como amor. Mas penso ser apenas uma questão de tempo.

      Conta: é possível se libertar do ciúme?
      Sim. O ciúme é limitador para quem é alvo dele e para quem o sente. O ciumento, geralmente, tem baixa autoestima; imagina a todo momento que será trocado por outro. Devemos questionar mecanismos que podem ser modificados. Não tenho dúvida de que para uma relação amorosa ser realmente satisfatória não pode haver controle, ciúme, possessividade. Os dois só mantêm a relação porque se amam e sentem muito prazer quando estão juntos. O que o outro faz quando não está comigo, não me diz respeito.
      Qual é a maior preocupação das pessoas em relação ao parceiro (a)? É a exclusividade sexual. Apesar disso, são muito comuns as relações extraconjugais. Muitos dizem que elas acontecem porque o namoro ou casamento vai mal. Não é verdade. As relações extraconjugais ocorrem principalmente porque é natural gostar de variar. Um casamento pode ser plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e sexual e mesmo assim se transar com outras pessoas. Em vez de nos preocuparmos se nosso parceiro (a) se relacionou sexualmente com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: “Sinto-me amado (a)?; Sinto-me desejado (a)? Se a resposta for Sim para as duas, ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Não tenho dúvida que dessa forma as pessoas viveriam muito melhor.

      Não é possível viver bem a dois com exclusividade?
      Acredito que dentro de algumas décadas menos pessoas vão optar por se fechar numa relação a dois e mais gente vai preferir ter relações livres, múltiplas. Mas a grande vantagem do momento em que vivemos é cada um poder escolher a sua forma de viver. Como tendência vejo que se alguém quiser ficar 40 anos casado com um pessoa, tudo bem. E se quiser ter três parceiros fixos, também será possível. É possível ser feliz a dois e haver exclusividade, mas isso não pode ser uma obrigação, uma cobrança, como sempre acontece entre os casais. Muitos acreditam que, numa relação amorosa, só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado. Existem pessoas que preferem até abrir mão da própria liberdade, desde que seja um bom argumento para controlar a liberdade do parceiro.

      E pro namoro ser satisfatório? 
      Acredito que para uma relação amorosa ser realmente satisfatória é necessário que as pessoas reformulem as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois. É fundamental que haja respeito total ao outro, ao seu jeito de pensar e de ser e às suas escolhas; liberdade de ir e vir, ter amigos em separado e programas independentes. E o principal, não haver controle nenhum da vida do outro. Caso contrário, a maioria das relações, com o tempo, se tornam sufocantes.

      Rê, rola muita pressão no dia de hoje pra quem tá solteiro. E já vimos muitas pessoas tristes por estarem solteiros… Por quê?
      A coisa mais importante da vida é ter um par amoroso fixo e estável, ou seja, um namorado. A propaganda a favor é tão poderosa que a busca da “outra metade” se torna incessante e muitas vezes desesperada.  Acredita-se tanto nisso que a sua ausência abala profundamente a autoestima de uma pessoa e faz com que se sinta desvalorizada. É fundamental que as pessoas desenvolvam a capacidade de viver bem sozinhas. A condição essencial para ficar bem sozinho é o exercício da autonomia pessoal. Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém. E quando se perde o medo de ser sozinho, se percebe que estar sem um par amoroso não significa necessariamente solidão.

      Eita, que aulão. Vale repensar tudo o que foi falado acima, olhar pra dentro e seguir feliz! Rê, só agradecemos pelo papo e pela troca. 

      Feliz dia do amor pra todo mundo!

      12.06.18