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sua mochila está vazia

    • mulheres com sotaque: Péo

      De repente me vi ali de novo, rodeada de crianças, observando com espanto aquela casa que mais parecia um barco cheio de janelinhas, ou quem sabe uma nave espacial, pelo formato arredondado. Esse lugar é a Casa Redonda, escola onde meu irmão estudou 13 anos atrás. Fui lá entrevistar a fundadora, Péo.
       
      Maria Amélia Pinho Pereira é uma mulher que me inspira – e muito! Ela criou uma escola onde o brincar é levado a sério e as crianças se desenvolvem num ambiente lúdico e com muito contato com a natureza. Também fundou um projeto social pros migrantes que vem tentar a vida do lado de cá, a Oca: uma escola de cultura popular onde as raízes de cada um são honradas e fortalecidas e se aprende dançando e tocando. Como se fosse pouco, ela é também vice presidente do Instituto Brincante aqui em Sampa.
       
      No dia da minha visita, subimos uma escada em espiral e entramos em uma salinha pra conversar. Havia ali uma das muitas janelinhas azuis e vermelhas espalhadas pela casa redonda: “Em cada janela que eu olho vejo uma vista diferente, um novo recorte do verde lá de fora. Daí eu penso: meu Deus, é isso, o mundo são várias janelinhas, não uma só”, me contou Péo.

      Ju: Péo, me conta um pouco da sua história?
       
      Nasci defronte do mar, sou de Salvador e o fato de ter convivido com um horizonte mais aberto determinou muito a minha maneira de ser. Eu não esqueço que o mundo é infinito. Vim pra São Paulo como muitos nordestinos, aos 22 anos, achando que no sul estava o conhecimento maior das coisas. Esse horizonte aberto começou a ser constelado de outra forma e o mantive dentro de mim como um pulsão dos sonhos e idealismos no âmbito da educação.

      Cheguei aqui e entrei em uma escola experimental, onde fui sócia e professora durante 20 anos. Apesar de ser experimental, era uma instituição com sala de aula, horários fixos, aquela coisa toda e convivendo com os meninos aprendi muito com eles. Ao dar ouvido à eles vi que a escola tinha que ter outro formato. Eu via que o planejamento, que era feito pelos professores, chegava na sala de aula, com aqueles 20 meninos vivos, e não dava certo. Passei a ouvi-los mais. E ouvindo, vi que a escola tinha que ter um outro formato. Percebi que não dá pra deixar as crianças de 3, 4, 5 anos numa sala, quando no recreioacontecia o momento mais vivo, onde você via as crianças alegres, brincando entre si, os maiores e os menores. Por que não fazer disso uma constante da escola?

      Na escola tradicional se diz muito “não” às crianças. “Não” pra um começo de vida, que está ali com uma pulsão física, emocional, mental, querendo conhecer, explorar. Assim não dá. Também fui percebendo o ritmo das crianças. Notei que a mesma aula que era programada pras 8h, quando os alunos estavam cheios de energia, não podia ser programada pras 13h, logo depois do almoço, quando o corpo deles pedia outra coisa. O nível de concentração era outro. E os planejadores do nosso sistema de educação, quena sua maioria são mentes masculinas, e distantes de um contato direto com as crianças, não percebiam isso.
       
      A mulher tem uma percepção mais aguçada pros ritmos. O fato da gente menstruar, ter uma relação com a lua, ficar com o filho nove meses na barriga, nos dá outra sensibilidade. Não é que o homem não seja sensível, é que a nossa cultura poda o desenvolvimento dessa sensibilidade.

      Ju: e como você decidiu criar a sua própria escola (a Casa Redonda)?

       A Casa Redonda nasceu quando eu compreendi que a gente é um ser cósmico, que estamos dentro de um planeta que pulsa vida e que somos parte de um todo. Nesse momento entrei em desacordo com o sistema patriarcal, focado mais na racionalidade e que há milhares de anos domina o planeta, e me permiti não corresponder mais ao padrão cultural pré-estabelecido. Se você não presta atenção, vai se adequando à ele e, quando vê, tá precisando brincar de novo na vida.
       
      O nosso atual sistema é muito baseado no controle, num controle de produção, mas eu acho que a vida é muito mais inteligente do que a matemática. Queremos um mundo que nos controle ou um mundo onde a gente possa fluir com a vida? Nesse sentido, o feminino (não a mulher, mas o feminino em si) traz essa fluidez.
       
      A evolução é teimosa e a gente vai chegar lá porque ninguém quer ficar no lugar onde está. Queremos ter tempo pra conversar, brincar, sentir, ter mais tempo livre. Não nascemos pro trabalho, é um engano isso. Nascemos pra fazer aquilo que gostamos, e acho que 80% da humanidade trabalha com o que não gosta.

      Trabalhando dentro de uma escola fechada eu sentia falta do contato com o verde. Acho que o descolamento com a natureza é um dos fatores fundamentais pras crises existenciais que a gente tá vivendo. Porque na natureza você vê os ciclos, a mudança das estações, o crescimento das plantas, vê que a vida não é linear. E o contato com ela é um elemento fundamental pra descoberta do que é o feminino. Sinto que o universo pede à mulher que não abra mão da sua sensibilidade em relação à natureza externa e a dela própria.
       
      Escolhi uma chácara bem verde pra fundar a escola e pedi ao meu marido, que era arquiteto, pra construir uma casa onde entrasse muita luz do sol e da lua.
      Ju: Péo, vejo você como uma grande observadora do universo infantil. Me diz, como você observa a mulher nos seus primeiros anos de vida?
       
      Olha, vejo que as meninas assumem uma identificação muito grande com o papel da mãe e, nesse papel, elas são as poderosas. Uma das brincadeiras mais presentes na infância é a de construir a própria casa, porque a casa, pras crianças, é o materno.  Outra brincadeira é a de ser mãe. Como aqui temos crianças de várias idades, as meninas de 5 anos brincam que são mães dos meninos de 2, 3 anos.

      A Casa Redonda existe desde 1982 e eu tenho observado uma mudança nas meninas, que é um reflexo da mudança na maneira de ser das mães. Na década de 80, muitas delas optavam por deixar o trabalho pra ficar com os filhos durante os primeiros anos e isso vem acontecendo muito pouco agora. Hoje, elas deixam as crianças na escola pra irem trabalhar e, quando chegam em casa, precisam garantir os cuidados dos filhos, se tomaram banho, comeram, escovaram os dentes – não sobra tempo pra brincar. Isso se reflete nas brincadeiras de casinha, que na década de 80, 90 tinham um ritmo mais harmonioso e muito mais tranquilo. A criança fazia comidinha e cuidava do bebê com toda a calma do mundo. Hoje esse cuidar se transformou em mandar, elas vivem dizendo: “é hora de dormir, é hora de ir pra escola, é hora disso, é hora daquilo”. E o pequeno que está ali brincando aceita isso em um primeiro momento, mas rapidamente reage a esse comportamento autoritário e diz que não quer mais ser o bebê. E então, quando elas perdem os seus bebês, transformam meninos um pouco maiores em cachorros de estimação, amarrando uma corda na cintura deles e andando pra lá e pra cá, controlando-os. Isso me preocupa.

      As crianças chegam a verbalizar que querem duas mães, uma mãe que manda e outra que brinca. E essa mãe que manda tem sido incorporada cada vez mais pelas meninas, que muito cedo assumem uma postura determinada e autoritária. Vejo isso como um reflexo do estatuo social feminino de hoje: as mães já não se sentem realizadas somente com o seu lado materno, precisam ter o seu lado profissional também desenvolvido. Acontece que, nesse sistema econômico terrível, o lado materno acaba completamente suprimido. O desequilibro é evidente. A mulher é impedida de viver a sua gravidez com tranquilidade e a comunhão maior entre ela e a sua cria é conspurcada. E o tempo feminino, aquele tempo sem tempo, aberto, fluido, acaba se perdendo.
       
      Acho que a mulher entrou no universo profissional, patriarcal e se adequou ao raciocínio que já estava ali, deixando o modo de pensar feminino de lado. Pra poder competir, ela aceitou esse sistema mais racional, em detrimento de um caminho onde a dimensão sensível esteja presente. As crianças dizem que não querem aprender a ler porque, quando aprenderem, a mãe vai deixar de contar história. Na Hungria, descobriram que se pagassem a uma mãe um valor pra que ela mantivesse os seus filhos de até 3 anos em casa, seria economicamente melhor do que manter as creches.

      Ju: na Oca você tem muito contato com mulheres nordestinas e migrantes de várias partes do país. Que saberes elas trazem consigo?

      Essas mulheres são guerreiras e sobreviventes. Abriram mão de tudo que tinham, deixando pai, mãe, roça, identidade e cultura pra atrás, e vieram pra São Paulo em busca de trabalho pro marido, com 3, 4, 5 filhos. Hoje elas mantêm a casa, além de terem que trabalhar, de modo que os filhos vão sendo entregues aos irmãos mais velhos. A maioria delas é analfabeta.
       
      Me lembro de uma contando que, quando o marido arranjou outra mulher e a deixou com 5 filhos, disse assim “você vai continuar analfabeta a vida inteira”. E ela foi pra Oca pedindo pra aprender a ler, pra um dia dizer ao ex-marido tudo o que ela pensava. Essa moça tinha dentro dela uma força tão grande que aprendeu rapidamente. Como ela era mineira, foi lendo trechinhos do livro Miguilim de Guimarães Rosa queela aprendeu a ler na Oca. E ela se identificava muito. Quando lia sobre as frutas daquele lugar, as festas, a vida vinha de novo pra ela.

      São as mulheres aqui da periferia, onde fica a Oca, que sustentam as famílias, porque os maridos em geral são alcoólatras, drogados ou estão presos. Na hora que elas se alfabetizam, ganham uma nova consciência da sua situação e começam a se posicionar, não aceitando mais ter sexo só para descarregar tensões de um marido bêbado, por exemplo.
       
      O que acontece com esses migrantes, que aqui chegam deixando sua terra natal por questões econômicas, é de uma violência profunda: é o desenraizamento da sua cultura, de sua identidade – e com esse desligamento, eles e elas se desconectam da vida. No momento em que você faz uma ponte com a sua cultura de origem, esta vem com uma riqueza profunda. Hoje, as mulheres da Oca se transformaram em bordadeiras de renascença e criaram um grupo de mães, e você precisa ver essas mulheres falando: há um saber, que não é o saber da escrita, um saber de vida, que elas não tem onde expressar. Elas sabem se virar num mundo de escassez e são muito solidárias, o saber delas vem das situações corajosas de sobrevivência. Quando morre uma mãe ou um pai é preso por causa de drogas, a vizinhança assume aquelas crianças. Nessas situações a generosidade é exposta imediatamente. Isso é de uma riqueza humana extraordinária.
       
      Quero redigir a vida dessas mulheres. Um dia chamamos uma delas pra contar sua história e ela descreveu como era cortar cana no canavial apanhando do pai, tendo que estar na roça todos os dias as 5 horas da manhã. Os próprios filhos, que estavam ali ouvindo, não sabiam disso e ao ouvir passaram a respeitar muito mais a mãe. Os meninos da Oca, qualquer menino, dos 4 aos 15 anos, nos finais de festa pedem, sempre, pra levar comida pras mães.
      Eu me lembro de uma outra mulher, em um projeto que eu estava fazendo na Bahia, me dizendo assim: “Olha, eu tomo conta de 5 filhos, não tenho tempo de botar eles no colo, de contar histórias. Mas eu sei e eles sabem que a sopa que eu boto de noite pra eles tomarem é o meu abraço neles”. Eu fiquei arrepiada, ela era lavadeira e os clientes dela doavam peles de frango que sobravam pra ela fazer a sopa da noite. Ela dizia “Não me sinto culpada não, eu faço o que posso”. "Esse é o amor que dou à eles". Poxa, essa consciência é fantástica, e os meninos dela eram alegres, com uma capacidade criativa muito grande.
       
      Eu vejo que a gente menospreza uma população brasileira que tem saberes extraordinários guardados, e que a gente não utiliza esses saberes pra enriquecer a nossa cultura e a nossa visão de ser humano. Reverencio essas mulheres que com muito pouco sobrevivem, com um espítiro comunitário aberto ao sorriso, prontas pra ajudar quem precisar.  Essa disponibilidade para a comunhão com a vida está ali presente em uma força que, sinceramente, não é muito comum em outras classes sociais, onde o individualismo parece ser a regra do convívio entre as pessoas. A vida confortável e cheia das facilidades parece criar um empobrecimento, anestesiando os sentimentos que podem conduzir a uma fluência mais humana, mais solidária e mais fraternal entre as pessoas.

      Super obrigada especial para Maria Amélia Pereira e Rinaldo Martinucci, que nos cederam as fotos dos arquivos da Casa Redonda.

       
      09.03.17