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sua mochila está vazia

    • mulheres com sotaque: Arielly Oliveira

      Alagoas é uma terra recheada de mulheres fortes. É berço da resistência negra, terra de Zumbi dos Palmares e de gente que luta diariamente pra ser visto, que fala mais alto pra ter sua voz ecoada. Foi assim, ouvindo a voz alta de quem tem muita coisa pra falar, que eu conheci a rapper Arielly Oliveira, na metade de 2016, durante a pesquisa pra um documentário sobre rap maceioense.
       
      Ela começou no reggae quando tinha 15 anos e, em 2007, teve seu primeiro contato com o rap fazendo backing vocal pra um grupo chamado NaHumilde. “Na época, não entrei com tanto amor, entrei mais porque gostava de cantar. Mas aí fui conhecendo melhor o rap e aprendendo que não era apenas uma música, mas sim o grito de pessoas ameaçadas por um sistema que sempre excluiu o povo pobre e negro das periferias de toda essa engrenagem e fui vendo que eu fazia parte disso, dessa exclusão. Com essa consciência, tomei amor e respeito e fui fazer de coração”.

      De uns anos pra cá, Arielly se deu conta que o lugar de mulher não é só fazendo backing vocal. Aos 29 anos ela decidiu iniciar uma carreira solo por aqui, afinal, já tava na hora de mostrar a sua cara e dar voz aos próprios sonhos e angústias. Não foi fácil começar e não é tranquilo seguir com essa escolha.
       
      “É difícil encontrar um lugar no movimento. É difícil segurar a onda com a família e também cantar aos olhos da sociedade. Quando entrei no movimento hip hop, não tinha maturidade pra perceber as atitudes machistas. Não entendia que ser colocada como backing vocal, sempre de fundo era, muitas vezes, uma atitude machista. Lembro de algumas frases que me fizeram enxergar que o movimento e a sociedade sempre estavam ali culturalmente pra me fazer parar: ‘sua voz não serve para rimar’, ‘e sua filha, com quem você deixa?’ Nossa … Além de olhares de pessoas que não me viam como artista” – desabafa.

       

      Eu tive todos os motivos do mundo pra parar, mas os mesmos motivos que quiseram me frear me fizeram ter força para continuar e provar que sou boa no que faço! Acho muito importante que as mulheres possam se fortalecer, quebrar esse tabu, se jogar mesmo na cena sabendo o que querem e sendo inteligentes. O machismo no Nordeste é muito forte! Culturalmente falando, os homens se sentem as cabeças de tudo e algumas mulheres reproduzem o machismo achando que realmente tem que ser assim. E não tem! Essa não tem que continuar sendo a nossa realidade!”
       
      Se já não é a coisa mais fácil do mundo ser mulher, quem dirá ser mulher, negra e mãe na periferia de uma cidade que já foi considerada uma das mais violentas do mundo. É por isso, também, que Arielly é um super símbolo de força pra mim. Ela resiste, diariamente, a coisas que eu não tenho a menor ideia de como conseguiria resistir.
       
      Introvertida à primeira vista, ela se transforma quando solta a sua voz empoderada. Quando pergunto o que a faz criar, ela me diz: “é justamente a FALTA. Falta tanta coisa pra nós. Saúde, educação, amor, paz, segurança… Quando falo sobre essas coisas não falo isso apenas como mulher, falo como ser humano mesmo. Minha vida não foi fácil e nem é! Acho que também é um dos motivos que me faz escrever. Sempre fui uma pessoa tímida, ruim de comunicação e escrever era uma oportunidade que tinha de me expressar. Juntei o que eu gosto de fazer (cantar) com minhas necessidades (falar).”

      Nas suas letras, nos discursos dos seus shows e nas redes sociais, Arielly se firma cada vez mais como uma voz feminista em Alagoas. Pra quem, há poucos anos, não conseguia enxergar atitudes machistas diárias, ela conta que foi a internet que a ensinou e a fez entrar com tudo no movimento.
       
      O feminismo me ajudou muito! Eu lia os posts de mulheres que já conheciam a luta de uma forma mais ampla e via que elas não tinham medo de falar como sofriam. Eu fui me fortalecendo, perdendo o medo, me defendendo em casa – lugar onde o machismo era muito intenso e me fazia muito mal. Assim comecei a desabafar em minhas letras e vi que esse era realmente o caminho para o meu fortalecimento e para o combate ao machismo que sofria e sofro até hoje.”
       
      Seu rap é cheio de sotaque (e a gente ama isso!) e ela acredita que algumas coisas diferenciam o rap de Maceió do rap de outros lugares do Brasil. Aqui, ela diz que o rap tem choro, tem amor, tem verdade, ousadia e resistência. Fala de dentro pra fora, com eita e oxe!

       
      Se tem outra coisa que me deixou encantada com a Arielly, além da música, é a relação dela com a filha, Gabi. Enquanto conversávamos, numa pista de skate no bairro onde ela mora, Gabi andava de patins e, vira e mexe, aparecia pra conversar com a gente também.
       
      Tenho muita vontade de ser mãe, mas me pergunto o quanto deve ser difícil criar filhos e preparar uma filha pra esse mundão doido que a gente vive. Mas, sobre isso, ela me dá mais uma lição: “Gabi se espelha muito em mim e eu não perco a oportunidade de mostrar como o mundo é de fato. Pela pouca idade que tem, vejo que ela se empodera muito rápido. Já tem uma identidade, sabe que é negra, sabe que tem muita gente má. E assim a gente cuida uma da outra!

      Sobre suas grandes influências, Arielly conta que são as mulheres negras, claro, que mais a inspiram! “Na música a mulher que tenho como referência é a Diana Ross, simplesmente por seu amor a música, seu jeito sexy e ousado que sempre achei muito foda pra época dela. Fora da música, sou apaixonada pela luta, força e coragem de Angela Davis. Conhecendo a história dessa mulher, vi que a luta feminista e o movimento negro são batalhas grandes”. E as rappers nordestinas, alguma? Ela diz que não podemos deixar de ouvir Camila Rocha e Afronordestinas, da Paraíba e Relato Verdadeiro, de Sergipe.

      A força da Arielly e da música caminham juntas e, juntas, servem de inspiração!
       
      “A música é meu ponto de equilíbrio; um dos motivos de minha sobrevivência! Acho que não estaria viva se o rap não tivesse me encontrado e segurado em minha mão. É a música que me fez mulher, me ensinou a me defender, me ensinou meus direitos, me ensinou a enxergar meus erros e levantar a cabeça e bater o pé com força e falar o que acho certo! Me sinto muito emocionada e privilegiada por fazer parte de tudo isso e por ter dado a volta por cima, mesmo em um movimento tão machista. Hoje tenho meu trampo lindo, com quem quero, pra mostrar que somos livres, que há tempo e que devemos nos unir sempre!

      *** Agradecimento especial ao Levi Yuri pelas fotos p&b. Fotos coloridas por Taynara Pretto.

      10.03.17